C. Portinari, Celso Kelly, 1926

ASSOCIAÇÃO DOS ARTISTAS BRASILEIROS (AAB)
André Luiz Faria Couto

Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).

Entidade de caráter cultural criada no Rio de Janeiro, em 1929, por artistas plásticos, arquitetos, escritores, dramaturgos, atores, músicos e outros intelectuais, que defendiam a renovação do ambiente artístico e cultural da então capital do país; opondo-se, em especial, ao conservadorismo da Escola Nacional de Belas Artes (ENBA).


Navarro da Costa, Marinha, Marinha, 1915

A origem da Associação remonta à atuação de um grupo de artistas que, insatisfeitos com a eliminação de mais de 200 obras pelo júri da Exposição Geral de Belas Artes do ano de 1929, decidiu organizar uma mostra alternativa com os trabalhos recusados, a que deram o nome de Salão dos Artistas Brasileiros. Realizada no Salão Nobre da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, e contando com a participação de mais de 120 artistas, que expuseram cerca de 300 obras, a mostra obteve grande repercussão na imprensa. Pelos motivos que a geraram, foi chamada também de Salão dos Recusados, numa referência ao Salon des Refusés, organizado na capital francesa, em 1863, como alternativa ao conservadorismo do Salão de Paris, e do qual participaram então jovens artistas de tendência renovadora, como Manet e Cézanne, sendo tido como um marco na história da pintura moderna.


Rodolpho Chambelland, Baile à fantasia, 1913, MNBA

A Associação dos Artistas Brasileiros foi fundada logo após o encerramento do Salão. Seu primeiro presidente foi Mário Navarro da Costa (1883-1931), pintor de marinhas que, apesar de nunca ter estudado na ENBA, participou de diversas edições do Salão Nacional de Belas Artes, sendo premiado em 1907, 1912, 1913 e 1920. Diplomata de carreira, Navarro da Costa havia trabalhado em Nápoles, Lisboa, Paris e Munique, entre 1914 e meados da década de 1920, quando pôde realizar estudos de pintura e desenvolver carreira artística, tendo tido contato com artistas impressionistas e com as vanguardas que então agitavam o cenário cultural europeu, ainda que a elas nunca tivesse aderido. Pouco tempo permaneceria, porém, na presidência da AAB, tendo falecido em 1931, na Itália. A principal figura da Associação, contudo, foi o seu secretário-geral, o advogado, jornalista, escritor, autor teatral, pintor e crítico de arte Celso Kelly (1906-1979), que já tinha sido o organizador e maior incentivador do Salão dissidente de 1929. Posteriormente, Kelly seria professor na Faculdade Nacional de Filosofia e presidiria a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), entre 1964 e 1966.


Santa Rosa, Pescadores

De acordo com Teixeira Leite, a Associação dos Artistas Brasileiros, no período inicial de sua atuação, “chegou a desempenhar papel de certa importância, exercendo polida oposição à política cultural desenvolvida pela Escola Nacional de Belas Artes, e engrossando as fileiras dos que proclamavam a necessidade de renovação estética do conservador ambiente artístico vigente, à época, na capital da República”. Nesse sentido, ainda em 1929, no mês de maio, a entidade promoveu a primeira exposição individual do pintor Cândido Portinari, com 25 obras, no Palace Hotel, no Rio de Janeiro.


Angelina Agostini, desenho

Referências à atuação posterior da entidade são, porém, bastante raras e esparsas. Adriana Irigoyen atribui à Associação a iniciativa da realização do Primeiro Salão de Arquitetura Tropical, inaugurado em 17 de abril de 1933, novamente no Palace Hotel. Coube também à Associação, de acordo com a Enciclopédia Itaú de Artes Visuais, promover um Salão de Auto-Retratos, em 1935, do qual Guignard teria participado. Já segundo o crítico Gustavo Dória, o grupo de teatro amador Os Comediantes, fundado em 1938 por Brutus Pedreira, Tomás Santa Rosa e Luiza Barreto Leite, e que cumpriu importante papel na renovação do teatro brasileiro, teve “o seu percurso bastante ligado ao da Associação de Artistas Brasileiros”. Elza Ajzenberg, por seu turno, afirma que foi a convite da Associação que os organizadores da Família Artística Paulista realizaram, no Rio de Janeiro, a terceira e última mostra do grupo, entre agosto e setembro de 1940. Por fim, a referida Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais faz referência à participação da artista plástica Cybèle Varela no Salão da Associação dos Artistas Brasileiros, realizado no Museu Nacional de Belas Artes, ainda no ano de 1962.

Fontes
- AJZENBERG, Elza. Grupo Santa Helena. 19&20, Rio de Janeiro, v. III, n. 4, out. 2008. Disponível em: <http://www.dezenovevinte.net/artistas/artistas_gsh.htm>
- ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Artes Visuais. Verbete: Cybele Varela.
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=artistas_
biografia&cd_verbete=1482&cd_item=18&cd_idioma=28555>
- ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Teatro. Verbete: Os Comediantes.
<http://www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopedia_teatro/index.cfm?fuseaction=cias_
biografia&cd_verbete=641>
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbetes: Associação dos Artistas Brasileiros, pp.38-39; Kelly, Celso, p.271; Navarro da Costa, Mário, pp.346-348).
- MOREIRA, Pedro. Alexandre Altberg e a Arquitetura Nova no Rio de Janeiro. Arquitextos. Vitruvius. <http://vitruvius.es/revistas/read/arquitextos/05.058/484>
- PROJETO Guignard (site oficial).
<http://www1.cultura.mg.gov.br/index.php?acao=busca_cronologiaColetivas>
- PROJETO Portinari. Cronobiografia de Cândido Portinari.
<http://www.portinari.org.br/ppsite/ppacervo/cronobio.pdf>

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