Bienal de Veneza
André Luiz Faria Couto
Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).



Bienal de Veneza,
Flávio de Carvalho Retrato

Mostra internacional de arte realizada a cada dois anos na cidade italiana de Veneza, desde 1895 até a atualidade. Em 1907, iniciou-se a prática de diversos países instalarem pavilhões próprios para receberem suas representações nacionais, para isso construindo edifícios projetados com esse fim, em área especialmente reservada ao evento. Em suas primeiras edições predominaram as artes decorativas, mas já nas mostras seguintes à I Guerra Mundial expunha-se em Veneza o que de mais expressivo a Arte Moderna produzia na Europa. Organizado durante mais de três décadas pela Prefeitura da cidade, o evento foi transferido, no início a década de 1930, para o controle do governo italiano, então sob domínio fascista. Interrompida por conta da II Guerra, a mostra seria retomada em 1948, consolidando-se como um espaço aberto às diversas tendências renovadoras da arte, acolhendo, por exemplo, o expressionismo abstrato nos anos 50, a pop-art nos anos 60 e manifestações artísticas contemporâneas de forma geral, vindas de diversas partes do planeta.

Durante muitos anos, a presença brasileira na Bienal de Veneza parece ter se limitado à participação isolada do pintor Hugo Adami, presente nas edições de 1924, quando estudava na Itália, e de 1930. O Brasil só formaria uma representação nacional oficial em 1950, na 25ª edição do evento, numa iniciativa do industrial paulista Francisco “Ciccillo” Matarazzo, grande incentivador das artes no Brasil, e que naquela mesma época esteve à frente da criação do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), em 1948, e da Bienal Internacional de Arte de São Paulo, em 1951. A primeira representação brasileira na Bienal italiana foi composta exclusivamente por artistas identificados com o Modernismo, o que demonstra a ampla aceitação e legitimidade por ele alcançado no país. Participaram, então, nomes já consagrados, incluindo alguns da geração de 22, e também artistas mais jovens, que só então começavam a se destacar no cenário nacional. Foram eles: Lívio Abramo, Vítor Brecheret, Flávio de Carvalho, Milton Dacosta, Di Cavalcanti, Cícero Dias, Bruno Giorgi, Oswaldo Goeldi, Marcelo Grassmann, Maria Leontina, Roberto Burle Marx, Ernesto de Fiori, José Pancetti, Cândido Portinari e Alfredo Volpi, todos de tendência figurativa, ainda que alguns deles posteriormente viessem aderir ao Abstracionismo. Na edição seguinte, em 1952, a representação brasileira foi ainda mais numerosa. Com curadoria de Maria Martins e Di Cavalcanti, a mostra contava novamente com nomes amplamente consagrados da arte nacional, como Guignard, Santa Rosa, Aldo Bonadei e vários outros já presentes na mostra anterior. Mas dessa vez era significativa também a presença de obras abstratas, como as de Luis Sacilotto, Anatol Wladslaw e Geraldo de Barros, vinculados aos concretistas paulistas do Grupo Ruptura, criado naquele mesmo ano; Ivan Serpa, líder do núcleo concretista carioca, que pouco depois daria origem ao Grupo Frente; além de Antônio Bandeira, identificado com o abstracionismo não geométrico (ou informal), que já então vivia na Europa. Em 1954, com curadoria de Antonio Bento, Mario Pedrosa, Wolfgang Pfeiffer e Sérgio Milliet, a arte abstrata passaria a ser hegemônica na representação brasileira em Veneza.


Bienal de Veneza, Hugo Adami Natureza morta

Na edição de 1956 da Bienal, o artista cearense Aldemir Martins recebeu o Prêmio Internacional de Desenho; enquanto Geraldo de Barros obteve prêmio de aquisição. Novas premiações ocorreriam com Fayga Ostrower (Prêmio Internacional de Gravura, em 1958), Marcelo Grassmann (Prêmio no setor de gravura, também em 1958), Manabu Mabe (Prêmio Fiat, em 1960), Ivan Samico (Prêmio de Arte Litúrgica, em 1962) e Arthur Luiz Piza (Prêmio David Bright, em 1966).

Ao longo dos anos, o Brasil continuaria comparecendo na Bienal de Veneza com nomes sempre representativos das artes plásticas nacionais, mantendo a combinação entre artistas consagrados e jovens revelações, nos mais variados campos expressivos. Além dos já citados, integraram também a representação brasileira em Veneza nomes como Lasar Segall, Heitor dos Prazeres, Samson Flexor, Carybé, Mário Cravo Júnior, Lígia Clark, Iberê Camargo, Rossini Perez, Tarsila do Amaral, Maria Bonomi, Frans Krajcberg, Almir Mavignier, Abrahan Palatnik, Glauco Rodrigues, Renina Katz, Aloísio Magalhães, Sérgio Camargo, Wesley Duke Lee, Farnese de Andrade, Mira Schendel, Mary Vieira, Tomie Ohtake, Franz Weissmann, Cildo Meireles, Antônio Dias, Anna Bella Geiger, Iole de Freitas, Carlos Vergara, Tunga, Daniel Senise, Eduardo Sued, Ângelo Venosa, Rosângela Rennó, Nuno Ramos, Arthur Bispo do Rosário, Waltércio Caldas, Nelson Leirner, Vik Muniz, Beatriz Milhazes, Miguel Rio Branco, Arthur Barrio, Helio Oiticica e Lygia Pape, esses dois últimos bem tardiamente, em 2003, além de muitos outros. Na Bienal de 1964 foi inaugurado o Pavilhão do Brasil.


Bienal de Veneza, Livio Abramo gravura

Através de Ciccilo Matarazzo, o MAM-SP foi o responsável pela organização da representação brasileira na Bienal de Veneza durante muitos anos, sendo posteriormente substituído nessa função pela Fundação Bienal de São Paulo, criada no início dos anos 1960, e pelo Ministério das Relações Exteriores. Em 1995, a representação brasileira voltou ao controle da Fundação Bienal de São Paulo.

A Bienal de Veneza é um dos mais antigos e importantes eventos artísticos do mundo. Se, de um lado, sua organização remete ao modelo das exposições universais do século XIX, em grande medida baseada em representações nacionais, por outro ela serviu de modelo para que outras mostras fossem criadas em diversas partes do planeta, a começar pela de São Paulo, cuja primeira edição, como já se disse, foi realizada em 1951.

A Bienal de Arte de Veneza associa-se ainda a outros eventos internacionais que ocorrem regularmente na cidade, como as mostras de Música, Cinema, Dança, Teatro e Arquitetura. O Festival de Cinema, instituído em 1932, é realizado anualmente e seus prêmios de melhor filme (Leão de Ouro) e melhor diretor (Leão de Prata) estão entre os mais cobiçados do mundo. Já a Bienal de Arquitetura, inaugurada em 1980, é realizada em anos alternados ao da Bienal de Arte.

Fontes
- FUNDAÇÃO BIENAL. Arquivo Histórico. Bienais de Veneza.
 <http://www.bienal.org.br/FBSP/pt/AHWS/Paginas/Bienais-de-Veneza.aspx>
- LA BIENALE DI VENEZIA (site ificial). <http://www.labiennale.org/it/Home.html>

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