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CANDOMBLÉ
Arnaldo Marques da Cunha

Professor na Casa das Artes de Laranjeiras, Rio de Janeiro (CAL). Curso de Jornalismo (incompleto), Escola de Comunicação, UFRJ. Revisor técnico e tradutor.


Iemanjá

Ao final do século XVIII, as ideias de “igualdade, liberdade e fraternidade” conquistaram o mundo e ecoaram também no Brasil, onde os senhores das terras, revoltados com os altos impostos cobrados por Portugal, começaram a ensaiar a independência. Essa liberdade não se estendia aos negros escravos, que há mais de dois séculos vinham construindo a riqueza do Brasil. Aprisionados em diversos pontos do continente africano, eram trazidos para o Brasil nos porões dos fétidos navios negreiros, e vendidos a peso de ouro nos portos do Rio de Janeiro, Recife e Salvador. Cansados dos maus tratos, fugiam e formavam os “quilombos” – aldeias encravadas nas matas brasileiras, onde tentavam reconstituir a vida que levavam na África.

Foi nesse clima tenso de rebeliões, revoltas e ideias novas que as divindades africanas chegaram ao Brasil. Os negros escravos não deixaram de expressar sua devoção aos Orixás nas fazendas para onde foram conduzidos. Aos domingos e dias santificados, para cultuá-los reuniam-se em festas que, aos senhores, pareciam danças inocentes e alegres batuques – assim nasceu o candomblé brasileiro. Para não levantar suspeitas nem atrair a ira dos senhores católicos, os negros associaram cada Orixá a um santo da Igreja Católica – Jesus e alguns santos chegaram mesmo a ser incorporados à religião africana, numa prática que ficou conhecida como “sincretismo religioso”.


Cena de Candomblé

No entanto, as diferenças entre cristianismo e candomblé são profundas: no candomblé não há “Bem” e “Mal” mas, sim, qualidades e defeitos que devem ser respeitados justamente por expressarem aspectos dos orixás. Além disso, em vez de um só Deus como autoridade suprema, a religião africana cultua vários orixás. Os mais poderosos assumem diferentes formas – aparecendo ora como velho, ora como jovem, às vezes como rei, etc. –, que se manifestam na própria natureza e também nos seres humanos, os quais herdam suas características físicas e psicológicas.

Segundo o candomblé, respeitar os atributos dos orixás e homenageá-los regularmente traz ao homem força e saúde para viver as infinitas encarnações que lhe estão reservadas no planeta Terra. Todas as divindades negras (que aqui chegaram para aliviar o sofrimento dos escravos africanos) são associadas aos quatro elementos – ar, terra, água e fogo – e, por isso, contêm toda a magia necessária para comandar as implacáveis forças da natureza. No Brasil,  16 orixás são cultuados:


Exu

– Exu (elemento: fogo; dia: segunda-feira; cores: branco e azul; signo: Gêmeos) éo orixá mais temido. Seus 21 tipos conhecidos são associados ao demônio, na tradição cristã, e costumam aparecer só depois da meia-noite: exigem bebida, mexem com as mulheres e provocam todo mundo. Assim como as “Pombas-gira” (seu princípio feminino), vivem a sensualidade sem a menor cerimônia; mensageiros, levam às altas entidades os pedidos dos seres humanos em troca de bebida forte, galinha preta, bode e farofa; abrem qualquer caminho, mas não trabalham de graça: a única lei que respeitam sem reservas é a do dinheiro e, a seu modo, são justos e sobretudo vingativos.

– Iansã (elemento: fogo; dia: quarta-feira; cor: vermelho; signo: Aquário) é determinada, corajosa e carismática, dona de forte personalidade. Essas qualidades, associadas a uma sensualidade intensa, em relação aos deuses e aos homens funcionam como verdadeiros imãs. Volúvel, não hesita em se doar aos muitos homens por quem se apaixona; ousada, segue as ordens do próprio desejo sem medir consequências e sem medo de riscos. No Brasil, é sincretizada com Santa Bárbara.

– Iemanjá (elemento: água; dia: sábado; cores: azul, branco e verde; signo: Peixes) é identificada com a água do mar, ocupando lugar especial por ser a matriz geradora de todos os Orixás – portanto, símbolo da maternidade e da procriação. Recebe as homenagens dos que desejam um ano de fartura e tranquilidade. Senhora das ondas e das oferendas, abre os caminhos: não há nada que exerça mais atração do que o mar. As mulheres que não conseguem engravidar recorrem a ela, pois é quem controla a fertilidade simbolizada em seu corpo robusto, forte, em seus seios volumosos e na aparência sensual. No Brasil, Iemanjá é sincretizada com Nossa Senhora da Imaculada Conceição, festejada no dia 8 de dezembro; porém, na Bahia, as pessoas a ligam a Oxum e a Nossa Senhora das Candeias, festejada no dia 2 de fevereiro – nesta data, em sua homenagem, se organiza uma das festas mais populares do ano. Frequentemente representada sob a forma latinizada de uma sereia, com longos cabelos soltos ao vento, também é chamada de Dona Janaína ou mesmo de Princesa ou Rainha do Mar.

Logum-Edé (elemento: água; signo: Libra), filho de Oxum Okê e Oxossi, tomou uma poção mágica para viver seis meses sob a forma de mulher, junto com sua mãe, e seis meses como homem, junto com o seu pai, sempre buscando um equilíbrio: flerta igualmente com homens e mulheres, e sua maior dificuldade consiste em fazer escolhas.

– Nanã (elemento: água; dia: sábado; cores: azul-escuro e branco) é a entidade mais antiga do candomblé, sendo associada ao barro com que foi moldado o primeiro homem, ao fundo de rios e mares, às águas paradas e aos pântanos. Ponto de contato entre as águas e a terra, é a senhora de muitos búzios que simbolizam fecundidade, riqueza e morte. No Brasil, é sincretizada com Sant’Ana, mãe da Virgem Maria.

Obá (signo: virgem) é a entidade presidida por “Diana, a caçadora”, uma deusa virgem da batalha e da luta, sendo “autossuficiência” a sua palavra-de-ordem.

– Obaluaê é vinculado à morte e às doenças, mas tem também o poder da cura. Apresenta-se sempre com o rosto coberto de palha-da-costa (capim claro e maleável). É sincretizado com São Lázaro e São Roque na Bahia, e com São Sebastião no Recife e no Rio de Janeiro.


Ogum

Ogum (elemento: terra; dia: terça; cores: vermelho, verde e azul; signo: Áries) é guerreiro, macho viril que não admite relacionamentos homossexuais, ao contrário dos outros orixás. “Baixa” de modo rápido e violento, o corpo se movimenta ao som e ao ritmo da dança guerreira, e age como se estivesse em meio à batalha mais terrível. Detentor dos segredos do ferro, é o orixá dos processos técnicos e da civilização, também considerado irmão gêmeo de Exu: de fato, há muita semelhança entre ambos, principalmente na coragem e na agitação. Na Bahia, foi sincretizado com Santo Antônio de Pádua e, no Rio de Janeiro, associado ao cristão São Jorge – o que se mostra mais compreensível, pois é representado como um valente guerreiro montado num fogoso cavalo e armado com uma lança com a qual transpassa um dragão encolerizado.

– Omulu (elemento: terra; dia: segunda-feira; cor: vermelho) é amargo, solitário, pessimista, com tendências autodestrutivas, costuma provocar doenças que, depois, ajuda a curar. Inspira respeito e medo. Pai dos que sofrem com problemas crônicos na pele, é o senhor das epidemias. Usa uma vestimenta feita de palha-da-costa, que vai até a cintura e lhe cobre totalmente o rosto. Também sincretizado com São Lázaro e São Roque na Bahia, e com São Sebastião no Recife e Rio de Janeiro.

– Ossaim ou Ossanha (elemento: terra; dia: segunda-feira; cor: verde; signo: Leão) rege as plantas medicinais e tudo o que cresce livremente, pois as folhas têm o dom de curar, matar, alucinar e acalmar: produzem a fertilidade, mas também acabam com ela. Paciente e tolerante, ama os animais. Acima de tudo, preza a liberdade – uma marca de todos os deuses das florestas. Adora que tudo gire em torno de si. Faz-se acompanhar sempre por Aroni – anão de um braço, uma perna e um olho, que lembra o Saci-Pererê ou o Caipora, figuras mitológicas do folclore brasileiro.

Oxalá (elemento: ar; dia: sexta-feira; cor: branco; signo: Capricórnio) é o primeiro filho de Olorum e foi-lhe confiada a tarefa de criar o mundo. Altivo e obstinado, recusou-se a fazer oferendas a Exu – o “mensageiro” do candomblé que jurou vingança e o deixou com uma sede terrível. Para saciá-la, bebeu da seiva de uma palmeira e, embriagado, acabou se esquecendo da missão sagrada. Quando a bebedeira passou, inconformado pela trapaça, foi contar o que lhe acontecera ao pai que, para consolá-lo, encarregou-o de criar o homem e tudo o que povoa o mundo. Modelou os corpos em argila e insuflou neles o ar da vida. No entanto, às vezes voltava a se embriagar com a seiva, mesmo durante o trabalho. Com isso, acabava esculpindo figuras deformadas e, por esse motivo, todas as pessoas com defeitos físicos contam com a sua proteção. Na Bahia, é sincretizado com o Senhor do Bonfim.

– Oxalufã é a representação de Oxalá mais velho. Sempre calmo, é respeitado por todos os filhos e, como todo bom pai experiente, também é um tanto ou quanto teimoso.

– Oxóssi (elemento: terra; dia: quinta-feira; cor: azul-turquesa; signo: Câncer) é um guerreiro destemido, viril e aventureiro, senhor das matas e dos espíritos da floresta. É o mais belo dos Orixás masculinos. Conquista o coração das mulheres, mas mostra-se indiferente às investidas amorosas. Indomável e cheio de iniciativa, sabe o que quer. Na Bahia é sincretizado com São Jorge e, no Rio de Janeiro, com São Sebastião.


Oxum

– Oxum (elemento: água; dia: sábado; cor: amarelo; signo: Touro) éa mais bela dos Orixás, sempre cercada de admiradores. Elegante e graciosa, usa artifícios para conseguir o que quer. Doce e meiga, não interfere na vida de ninguém e adora crianças. Símbolo da maternidade e da gestação, protege as mulheres grávidas e seus bebês. Seu lado maternal, no entanto, contrapõe-se à porção sedutora, que age com falsidade para atingir seus objetivos, principalmente no amor. Na Bahia, o sincretismo liga Oxum a Nossa Senhora das Candeias, festejada no dia 2 de fevereiro, e nesta data se organiza um solene presente para Iemanjá – isso mostra que o sincretismo entre os deuses africanos e os Santos da Igreja Católica não é de uma rigidez e de um rigor absolutos.

– Oxumaré (elemento: terra; dia: terça-feira; cores: amarelo, verde, vermelho e preto; signo: Escorpião) passa metade do ano como princesa e a outra metade como príncipe, ou como um demônio terrível. Amante do luxo e da riqueza, mantém um ar de superioridade e desdém. Extremamente divertido, não há quem resista a suas histórias. Força que governa a vida, Orixá da fertilidade, da arte, da cura e da abundância, é uma serpente que morde a própria cauda – o que simboliza a perpetuação da espécie.


Xangô

– Xangô (elemento: fogo; dia: quarta; cor: vermelho vibrante; signo: Sagitário) é a entidade mais forte do candomblé brasileiro: detém a força, o poder e a capacidade de fazer e desfazer todas as coisas, mas não age sem uma boa razão. Senhor dos raios e trovões, tem senso de justiça acentuado e não tolera a mentira, a desonestidade e a corrupção. Orgulhoso, encerra a dignidade própria de um príncipe (sua origem é relatada como sendo a de senhor de um império africano). Autoritário e dominador, detém uma energia inesgotável, devastadora. Foi sincretizado com São Jerônimo no Brasil.

Fontes
RIBEIRO, Bruno. “Falando de candomblé, parte II” (texto disponibilizado em
www.botequimdobruno.com.br).
VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás, deuses iorubás na África e no Novo Mundo. Salvador: Corrupio, 1997, 5ª ed.; pp. 25-26, 79, 94, 113, 140, 170, 192, 216, 240 e 259.

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