imprimir

Trifório

Cristã Primitiva, Apontamentos sobre Arquitetura
Everard M. Upjohn, Paul S. Wingert e Jane Gaston Mahler,

(professores da Universidade de Colúmbia, EUA)

*Disponível em História Mundial da Arte, V. II, Livraria Bertrand, Portugal 

“... As colunas clássicas eram concebidas de molde a sustentar um entablamento. Quando, no início do Império, os arquitetos queriam assentar um arco sobre uma colunata, tinham de introduzir um entablamento entre eles. Em contrapartida, o Palácio de Diocleciano, em Split, que data do fim do século III, tem arcos formados pelo próprio entablamento; em outras construções os arcos se apoiam diretamente sobre os capiteis, que desempenham deficientemente este papel de suporte. Ainda neste palácio, a coluna torna-se por vezes um motivo decorativo; como está destacada da parede, assenta sobre um “cachorro” e não pode, portanto, suportar um grande peso. 


Transepto é a parte cinza

Tudo isto mostra a liberdade com que o arquiteto, nesse tempo, utilizava os elementos clássicos, mas reflete também o perigo crescente que o Império corria. O plano dessa verdadeira fortaleza inspira-se, de fato, no de um acampamento romano. 


Corte transversal de igreja cristã

Depois de Galério, já mesmo no fim da vida, ter tolerado a Igreja (311) e de Constantino, pela promulgação do Edito de Milão (313), ter estabelecido a liberdade religiosa, os cristãos puderam construir algumas igrejas relativamente importantes. Mas apesar do tipo de basílica dita latina ser já corrente em Roma, no século IV, a origem da igreja cristã continua a ser um dos problemas mais controversos da história da arte. Alguns elementos destas construções foram provavelmente tirados das casas romanas, onde durante muito tempo os cristãos se reuniram, para celebrar o culto; outros provêm talvez das basílicas pagãs. De qualquer modo, a solução adotada pela liturgia cristã é simples. A planta compreende em primeiro lugar um átrio ou palácio aberto, cercado por uma galeria coberta (peristilo). A parte do pátio que dá para a igreja é, por vezes, mais importante do que as outras três, e serve de vestíbulo ou narthex. A seguir ao átrio, e no mesmo eixo, vem a basílica propriamente dita, dividida em três naves, sendo a central a mais larga. As três naves, onde ficam os fieis, conduzem a um espaço transversal que as corta em ângulo reto; é o transepto, que forma uma cruz com a nave central. Por detrás do transepto fica uma zona em forma de hemiciclo, ou ábside, que, em geral, é tão larga como a nave central. A ábside e uma parte do transepto estão reservadas para o serviço religioso. Algumas igrejas desse tempo têm cinco naves; em outras, o transepto não ultrapassa a largura das naves, mas os dados gerais que apresentamos persistem na maior parte dos casos e constituem aplanta fundamental da maioria das igrejas posteriores, do mesmo modo que se vão manter os dados que o corte transversal nos mostra: uma cobertura de madeira, sustentada por paredes relativamente finas, cobre a nave central, que é mais alta do que as naves laterais, e está iluminada por uma claraboia, aberta na parte superior das paredes. Sob a claraboia fica uma parede cega, correspondente à elevação da nave central em relação às naves laterais, que posteriormente virá a ser o trifório. Nas igrejas primitivas, a colunata que separa a nave central da naves laterais, mais baixas, sustenta traves, enquanto nas basílicas um pouco mais recentes sustenta arcos. A meia cúpula da ábside é a única abóbada destes edifícios. As primeiras igrejas cristãs não estavam orientadas em relação ao sol: em alguns casos, o altar ficava voltado para ocidente e o sacerdote oficiava por trás, virado a oriente, estando a assistência, portanto, voltada a oeste. No século V este hábito modificou-se, de modo ao sacerdote e a assistência ficarem voltados para nascente; desde então, o sacerdote está de costas para os fieis, durante a maior parte da missa. Tantas vezes o altar foi colocado a nascente e a entrada a poente, que estes pontos cardeais foram utilizados, durante toda a Idade Média, para designar essas partes da igreja...


St. Denis Paris vitral sobre o transepto

...Dadas as más condições econômicas da época, os construtores cristãos tiveram de recorrer a materiais 'recuperados'. A diminuição da população tinha tido como consequência o abandono de muitos edifícios romanos e os construtores cristãos foram aí buscar tudo aquilo de que precisavam. Mas associaram fragmentos de estilos absolutamente diferentes e, com frequência, combinaram-nos indiscriminadamente. Em  São Clemente, algumas colunas são caneladas, outras são lisas; na Igreja de São Lourenço, que data do século V, as traves que ficam sobre as colunas mais a poente, foram trabalhadas, mas os motivos das pedra contíguas variam de uma para outra, demonstrando assim que os blocos foram recolhidos em locais diversos. A decoração do pavimento é feita com discos de mármore vermelho, verde, amarelo ou negro, provavelmente recolhidos de colunas romanas.


Ábside bizantina

As primeiras basílicas cristãs estavam perfeitamente adaptadas à função que desempenhavam, apesar de terem uma construção leve. Se o teto fosse destruído por um desses incêndios, então muito frequentes, podia ser reposto, sem grande despesa. O fato da concepção arquitetônica da basílica ter subsistido em Roma desde Constantino, no desde o século IV até pouco antes do Renascimento, dez séculos mais tarde, prova a sua eficácia. A arquitetura tipicamente medieval irá nascer, não em Roma, sede do Papado, mas bem mais para norte.” 

Voltar