Divisão Moderna
André Luiz Faria Couto
Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).

Seção criada na 46ª edição do Salão Nacional de Belas Artes, promovido pela Escola Nacional de Belas Artes (ENBA) no Rio de Janeiro, em 1940, com a finalidade de abrigar a produção dos artistas de orientação moderna, cuja importância vinha crescendo expressivamente no Brasil havia duas décadas. A criação da Divisão Moderna foi, nesse sentido, um importante marco na história das artes plásticas no país, já que representou a abertura de um espaço para a arte moderna na ENBA, instituição que até então se mantinha decididamente alinhada ao tradicionalismo estético e fechada às orientações artísticas renovadoras.


Guignard As Gêmeas 1940

O arraigado conservadorismo da ENBA e do Salão Nacional de Belas Artes vinha sendo alvo de críticas que partiam, de tempos em tempos, de artistas e intelectuais de variadas tendências. Assim é que, em 1929, um grupo de artistas, insatisfeitos com a eliminação de mais de 200 obras pelo júri do Salão daquele ano, resolveu promover uma mostra alternativa, fora da Escola, que ficou conhecida como o Salão dos Recusados. É verdade que, no início da década de 1930, a arte moderna teria um importante, ainda que breve, momento de projeção no interior da ENBA, quando esta esteve sob a direção do jovem arquiteto Lúcio Costa. Durante a sua curta e tumultuada gestão, Costa tentou realizar uma profunda reforma de caráter modernizante na instituição, para isso contratando novos professores e promovendo uma mudança radical no perfil de seu principal evento expositivo, o Salão Nacional de Belas Artes, abrindo-o à participação de artistas de orientação modernista, algo que até então jamais acontecera. De fato, os modernistas não só participaram como dominaram amplamente o Salão de 31, que ficaria conhecido também como Salão Revolucionário, ou Salão dos Tenentes, alusões aos novos ventos políticos trazidos ao país pela revolução de 1930. Mas as fortes resistências à política então implementada, movidas por um grupo de professores da ENBA, levaram à demissão do diretor em setembro de 1931, quando o Salão Revolucionário ainda estava aberto ao público.

A derrota do projeto renovador de Lúcio Costa, porém, não aplacou, antes fortaleceu, a crítica central que inúmeros artistas e intelectuais dirigiam à ENBA, a de ser um reduto do conservadorismo estético; uma instituição havia muito tempo completamente defasada em relação ao que de mais importante ocorria no universo artístico mundial. Novo capítulo desse conflito se daria com a tensa presença no interior da instituição dos artistas que formaram o Núcleo Bernardelli, naquele mesmo ano de 1931. Constituído por jovens artistas, como Milton Dacosta, José Pancetti e Quirino Campofiorito, entre outros, o Núcleo também defendia a renovação do ensino de artes plásticas no país, clamando por maior liberdade de expressão para os alunos. Ocupando inicialmente um espaço a eles cedido nos porões do edifício da ENBA, os artistas do Núcleo Bernardelli acabariam sendo desalojados dali em 1935, por conta da oposição que lhes moviam os professores mais conservadores.


Milton Dacosta Casario 1943

Pancetti Mangaratiba 1946

Em 1940, finalmente, diante do inquestionável avanço do modernismo nos meios artísticos brasileiros, a ENBA se abriu às tendências renovadoras, ao criar a Divisão Moderna no interior do Salão Nacional de Belas Artes, permanecendo a arte acadêmica dominando a chamada Divisão Geral do evento. Em seu primeiro ano de funcionamento, a Divisão Moderna concedeu ao pintor Alberto da Veiga Guignard o prêmio de viagem ao país (pelo quadro As gêmeas), o que lhe permitiu viajar pelos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná. No ano seguinte, a ENBA concedeu, pela primeira vez, o prêmio de viagem à Europa a um artista de orientação moderna, José Pancetti, pela tela O chão. Por motivos de saúde, porém, Pancetti acabou não viajando ao Velho Continente; sendo sua premiação revertida em auxílio financeiro. Nos anos seguintes, o prêmio de viagem ao exterior voltaria a ser concedido a importantes artistas modernistas, como Milton Dacosta, em 1944, com Cena de ateliê; Iberê Camargo, em 1947, com Lapa; Clovis Graciano, em 1948; e José Morais, em 1949, com Retrato de Orígenes Lessa. Além dos prêmios de viagem ao exterior, a Divisão Moderna concedia a cada ano medalhas de ouro e prata, bem como menções honrosas, aos artistas que se destacavam.

A continuidade do avanço da arte moderna no país levaria, no início da década seguinte, à transformação da Divisão Moderna num salão à parte, dedicado exclusivamente à expressão artística de orientação modernista. Nascia, assim, o Salão Nacional de Arte Moderna, cuja primeira edição foi inaugurada em maio de 1952. O novo salão, assim como o antigo Salão Nacional de Belas Artes, agora novamente dedicado exclusivamente à arte acadêmica, ficava subordinado à Comissão Nacional de Belas Artes, então criada.

Em 1978, devido à irreversível perda de espaço por parte da arte acadêmica, os dois salões foram extintos, passando a existir um único Salão Nacional de Artes Plásticas, que funcionou até o ano de 1990.

Fontes
- CAVALCANTI, Carlos. Dicionário Brasileiro de Artistas Plásticos, MEC/INL, 1974. (Verbete: Camargo, Iberê, pp.328-329).
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbetes: Dacosta, Milton, pp.142-143; Divisão Moderna, p.164; Pancetti, José, pp.380-383; Salão Nacional de Arte Moderna, p.457; Salão Nacional de Artes Plásticas, p. 457; Salão Nacional de Belas Artes, p. 457, Salão Revolucionário, pp.457-458).
- Itaú Cultural - Verbete: Salão Nacional de Arte Moderna.
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=marcos_
texto&cd_verbete=3770&lst_palavras=&cd_idioma=28555&cd_item=10>
- PONTUAL, Roberto. Dicionário das Artes Plásticas no Brasil, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1969. (Verbete: Morais, José Machado, p.369)
- PROJETO Guignard. Cronologia.
   <http://www1.cultura.mg.gov.br/index.php?acao=busca_cronologiaAlberto>