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FAMÍLIA ARTÍSTICA PAULISTA (FAP)
André Luiz Faria Couto

Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


V. Gobbis, Mar e pedras

Grupo de artistas que se formou na capital paulista, em 1937, tendo como elemento aglutinador uma certa contrariedade de seus integrantes com relação à crescente influência das vertentes mais radicais do Modernismo no cenário artístico da cidade, ainda que eles próprios fizessem parte do movimento renovador que então se operava nas artes brasileiras. Seu principal idealizador foi o pintor e arquiteto Paulo Rossi Osir (1890-1959), que o batizou inspirado num agrupamento congênere existente na cidade italiana de Milão. Na constituição da Família Artística nota-se também a influência marcante dos pintores Waldemar da Costa (1904-1982) e Vittorio Gobbis (1894-1968), ambos, como Rossi Osir, importantes renovadores do ambiente cultural paulista nas décadas de 1930 e 1940.

A primeira geração de intelectuais modernistas do Brasil, projetada principalmente a partir da Semana de Arte Moderna de 1922, teve que assumir, por sua própria condição pioneira, a tarefa de combater tenazmente a tradição acadêmica que ainda dominava amplamente os meios artísticos do país. Seus integrantes, ansiosos por atualizar a arte brasileira em relação às tendências estéticas renovadoras que havia tempos agitavam a Europa, mas que entre nós se mantinham praticamente ignoradas, produziram uma obra que se pretendia, acima de tudo, vanguardista e experimentalista. Na década seguinte, porém, a cena cultural brasileira, e em particular a paulistana, viu surgir uma nova geração de artistas e intelectuais que, tendo assimilado a ideia de superar a arte acadêmica, divergiam entre si, contudo, quanto à melhor forma de dar prosseguimento ao processo renovador. Assim, algumas iniciativas então promovidas buscavam dar continuidade ao experimentalismo da primeira geração, como foi o caso da Sociedade Pró-Arte Moderna (SPAM) e do Clube dos Artistas Modernos (CAM), ambos surgidos em 1932; bem como dos Salões de Maio, realizados entre 1937 e 1939. Outros artistas, porém, mesmo dispostos a assimilar, no essencial, os princípios modernos, consideravam que o combate frontal ao tradicionalismo acadêmico já não era a tarefa primordial; negando-se mesmo a aceitar que a tradição acadêmica merecesse ser descartada. Ao contrário, esses últimos valorizavam em sua formação artística um dos traços distintivos da tradição clássica, o árduo trabalho de apuramento técnico. Era exatamente essa vertente moderada do modernismo paulista que se aglutinou em torno de figuras como Rossi Osir, Vittorio Gobbis e Waldemar da Costa, homens de grande erudição, adquirida ao longo de intenso e prolongado contato com os meios artísticos europeus. Dela faziam parte também os integrantes do Grupo Santa Helena, artistas de origem social modesta, que ganhavam a vida exercendo ofícios artesanais, como a pintura e a ornamentação de interiores. Na agitada cena cultural paulistana da segunda metade da década de 30, enquanto os vanguardistas dominaram o Salão de Maio, que contou com três edições entre 1937 e 1939; os moderados deram vida à Família Artística Paulista, que também realizou três importantes exposições, entre 1937 e 1940. Mas essa identificação da FAP com a corrente moderada dos modernistas não é, senão, um elemento vagamente orientador de sua atuação, caracterizada pela abertura à participação de artistas de personalidades bem diversas. O historiador e crítico de arte Walter Zanini destaca esse caráter aberto assumido pela agremiação, ressaltando a importância que teve, nesse sentido, a ação de Rossi Osir, “pintor de vivência internacional e igualmente homem culto e interessado no desenvolvimento artístico paulistano, [que] reuniu sob essa sigla amistosa figuras de origem e formação várias, ou seja, não estava em seus planos qualquer parti pris ou intenção de ordenar uma agremiação de orientação estrita. Sua preocupação maior era a de se sensibilizar as atenções para as qualidades artesanais da pintura (uma discussão na ordem do dia), que admirava nos seus escolhidos”. Deve-se acrescentar, ainda, que o panorama artístico paulistano no período era enriquecido pelo Salão Paulista de Belas Artes, evento a princípio dominado por tendências nitidamente acadêmicas, mas que ao longo dos anos 30 foi se abrindo à participação dos pintores de orientação moderna, que na década seguinte já predominavam em seu interior.


C. Portinari, Retrato de Osir, 1935, MAC-USP

Como já se disse, a Família Artística Paulista promoveu três importantes exposições. A primeira delas foi realizada em novembro de 1937, no Hotel Esplanada, na capital paulista; motivada, ao menos em parte, pelo desejo de reação ao vanguardismo dominante no I Salão de Maio, que se realizara poucos meses antes, no mesmo local. Segundo o crítico Paulo Mendes de Almeida, “o Salão de Maio timbrava em ser vanguardista e ousado. Contrariamente, a Família Artística Paulista, desdenhando mesmo o rótulo de modernista, procurava restabelecer um certo equilíbrio, retomar o fio da tradição em arte, prevenindo e prevenindo-se contra os desvarios e facilidades cometidos em nome da liberdade de expressão.

Essa primeira edição da FAP contou com a participação de Valdemar da Costa, Rossi Osir, Anita Malfatti, Armando Balloni, Arnaldo Barbosa, Arthur Krug, Hugo Adami e Joaquim Figueira, bem como de oito dos nove integrantes do Grupo Santa Helena (Francisco Rebolo, Aldo Bonadei, Alfredo Volpi, Clovis Graciano, Fulvio Pennacchi, Manuel Martins, Humberto Rosa e Mario Zanini - só ficando de fora Rullo Rizzotti). É de se notar que foi a partir de sua frequente participação nessas exposições que os artistas do Grupo Santa Helena – “um segmento da Família Artística Paulista”, segundo Walter Zanini - se projetaram no cenário artístico brasileiro, alcançando reconhecimento do público e da crítica.

No texto de apresentação publicado no catálogo dessa primeira exposição, Paulo Mendes de Almeida afirma que o grupo, mesmo rejeitando o academismo artístico, havia deliberadamente evitado autodenominar-se moderno, já que o termo, dizia, “tem servido não raro para acobertar as maiores heresias no domínio das artes plásticas, criando assim, no seio do público menos informado do assunto, a mais lamentável confusão”. Ainda segundo o texto, a Família buscava incorporar o que de mais proveitoso as vanguardas modernistas haviam produzido, mas desejava também se sentir integrada “nas mais legítimas tradições da pintura, que ligam, através dos séculos, as realizações de um Cimabue às de um Masaccio, as de um Masaccio às de um Giorgione, as de um Giorgione às de um Cézanne, as de um Cézanne às de um Matisse”. Almeida ainda completaria, mais tarde, que a Família “nada tinha, na intenção, de revolucionária. Nem se poderia, tampouco, rotular de passadista. Pensava em realizar uma arte contemporânea, que se prevalecesse das lições do passado, ao invés de com ele romper. No processo evolutivo das artes plásticas no país, proferiu uma palavra de prudência, representando, se assim se pode com propriedade dizer, uma pausa para a meditação, no sobredito processo”. Ainda em 1940, quando da realização do III Salão de Maio, que inclusive contava com a participação de alguns membros da Família Artística, o crítico Geraldo Ferraz, ligado à organização dos dois primeiros Salões, atacaria a FAP em virulento artigo, no qual ressaltava o apego do grupo à tradição e até a origem italiana da maioria de seus membros, chamando-os de “tradicionalistas, defensores do carcamanismo artístico da Paulicéia, a morrer de amores pelos processos de Giotto e Cimabue”. Mas, apesar de algumas rusgas eventuais entre os artistas e intelectuais envolvidos na realização daquelas exposições na capital paulista, predominavam entre eles um tom de colaboração e a disposição para a troca de experiências. Na verdade, a própria fronteira entre os modernistas moderados e radicais não era nítida, sendo impossível demarcar com rigidez o campo ocupado por muitos daqueles artistas, já que não era incomum que circulassem pelos diversos agrupamentos que se formavam.


Waldemar da Costa, Flores

A segunda exposição da FAP ocorreu nos meses de maio e junho de 1939, no subsolo do edifício onde funcionava o Automóvel Clube, na rua Líbero Badaró, em São Paulo. Além de vários dos integrantes da primeira mostra, dessa vez participaram também Rullo Rizzoti, Cândido Portinari, Toledo Pizza, Renée Lefevre, Nelson Barbosa, Nelson Nóbrega, Bernardo Rudofsky, Vilanova Artigas e Ernesto de Fiori. Na ocasião, o escritor e crítico Mário de Andrade, expoente da geração de 22, escreveu o importante artigo “Esta Paulista Família”, em que, apesar de algumas críticas à excessiva cautela do grupo, lhe dirigia elogios pela preocupação com a “legítima técnica de pintar”; reconhecendo ainda a importância da presença de artistas como Rossi Osir e Vittorio Gobbis para o aprimoramento da pintura produzida em São Paulo.

A terceira e última mostra da Família Artística Paulista, realizada no Rio de Janeiro, em agosto de 1940, contou com a participação de mais alguns importantes nomes da arte brasileira que estiveram ausentes nas duas primeiras edições, como Carlos Scliar, Paulo Sangiuliano, Vicente Mecozzi, Franco Cenni, Bruno Giorgi e Vittorio Gobbis. Logo em seguida, a Família Artística se extinguiu, sobrepujada, segundo Teixeira Leite, pelo aparecimento de novos movimentos.

Fontes
- ALMEIDA, Paulo Mendes de. De Anita ao Museu. São Paulo: Perspectiva, 1976. (pp. 115-128)
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbetes: Família Artística Paulista, pp.188-189; Osir, Paulo Cláudio Rossi, pp.368-369; Costa, Waldemar da, p.136).
- PONTUAL, Roberto. Dicionário das Artes Plásticas no Brasil, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1969. (Verbete: Costa, Valdemar da. p.148).
- ZANINI, Walter. 60 anos do Grupo Santa Helena. In: O Grupo Santa Helena (catálogo da exposição realizada no Centro Cultural Banco do Brasil), Rio de Janeiro, jan-mar/1996.
- Itaú Cultural. Verbetes: Família Artística Paulista, Rossi Osir e Waldemar da Costa.
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=
marcos_texto&cd_verbete=3761&lst_palavras=&cd_idioma=28555&cd_item=10>

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