Grupo dos 19 (Exposição 19 Pintores)
André Luiz Faria Couto
Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).



Grupo dos 19, Flávio -Shiró paisagem 1946

Exposição de pinturas realizada em abril de 1947, na Galeria Prestes Maia, em São Paulo, reunindo dezenove jovens artistas: Aldemir Martins, Antônio Augusto Marx, Cláudio Abramo, Enrico Camerini, Eva Lieblich, Flávio-Shiró, Huguette Israel, Jorge Mori, Lothar Charoux, Luís Andreatini, Luís Sacilotto, Marcelo Grassmann, Maria Helena Milliet Rodrigues, Maria Leontina, Mário Gruber Correia, Odetto Guersoni, Otávio Ferreira de Araújo, Raul Müller Pereira da Costa e Vanda Godoy Moreira.

Idealizada pela crítica de arte Maria Eugênia Franco, que na época de sua realização encontrava-se em Paris, a mostra foi coordenada por Rosa Rosenthal Zuccolotto e promovida pela União Cultural Brasil-Estados Unidos. O texto de apresentação ficou a cargo do jornalista e crítico de arte Geraldo Ferraz, figura atuante nos círculos modernistas da capital paulista, desde o final da década de 1920. Paralelamente à exposição, foram realizadas palestras sobre as tendências contemporâneas da arte, coordenadas por Lourival Gomes Machado, Luís Martins e Sérgio Milliet. Muito elogiada pela crítica especializada e contando com expressivo espaço na imprensa, a exposição obteve grande sucesso de público, sendo visitada por mais de 50 mil pessoas. Um júri composto por Anita Malfatti, Lasar Segall e Emiliano Di Cavalcanti atribuiu prêmios a Mário Gruber, Maria Leontina, Aldemir Martins, Flávio-Shiró e Cláudio Abramo.


Grupo dos 19, Aldemir Martins Gatos

As artes plásticas brasileiras iniciavam, então, nos últimos anos da década de 1940, uma nova fase de seu desenvolvimento, que levaria à gradual emergência das vanguardas abstracionistas e à consequente superação dos debates em torno da identidade nacional e do papel da arte como fator de conscientização social, que nas três décadas anteriores caracterizaram tão fortemente o nosso Modernismo. A importância da exposição 19 Pintores está, precisamente, no fato de ter sido um evento situado no limiar dessa transição; a primeira, talvez, na capital paulista, a expressar um novo ambiente artístico, em que os postulados modernistas começavam a mostrar sinais de desgaste, sem que, no entanto, as tendências abstracionistas já estivessem estabelecidas entre nós. O panorama não demoraria a mudar, porém, com a criação de importantes instituições culturais que acolheriam, nos anos seguintes, as tendências artísticas renovadoras, como foi o caso do Museu de Arte de São Paulo (MASP) e os Museus de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) e do Rio de Janeiro (MAM-RJ). Seguiram-se, então, algumas exposições que produziram forte impacto nos meios artísticos do país, como Do Figurativismo ao Abstracionismo, que inaugurou o MAM-SP e as individuais de Alexander Calder, Geraldo de Barros (Fotoformas) e, principalmente, a do suíço Max Bill, então a principal liderança do movimento concretista a nível mundial, todas elas no MASP; além, é claro, das Bienais de Arte que passaram a se realizadas regularmente na capital paulista, a partir de 1951.

O critério de seleção utilizado pelos organizadores da exposição 19 Pintores foi bastante fluido, exigindo-se apenas, como pré-condição, que fossem jovens e produzissem uma arte não acadêmica. Os artistas escolhidos eram ainda praticamente desconhecidos do público quando o evento foi realizado, ainda que alguns deles já tivessem se apresentado em mostras coletivas anteriores, como nos salões do Sindicato dos Artistas Plásticos de São Paulo.


Grupo dos 19, Maria Leontina sem titulo

Pelo fato dos expositores ainda estarem definindo os caminhos que percorreriam no período seguinte, o crítico Paulo Mendes de Almeida caracterizou a mostra como uma “apresentação, em conjunto, de um grupo de jovens independentes”. De fato, ainda que tenha predominado entre os expositores uma forte identificação com o Expressionismo e o Realismo Social, tendências muito em voga nos anos que se seguiram ao fim da II Guerra Mundial, não é possível apontar definições programáticas que os unificassem de forma clara. É importante notar, inclusive, que embora entre os participantes da exposição estivessem nomes como Luís Sacilotto, Lothar Charoux, Flávio-Shiró e Maria Leontina, que pouco depois se destacariam como expoentes do Abstracionismo no Brasil, na época da exposição todos eles desenvolviam ainda obra de características essencialmente figurativas. De Flávio-Shiró, por exemplo, Teixeira Leite afirmou ter participado do evento “expondo paisagens e naturezas mortas expressionistas, de colorido ainda indeciso, mas vazadas num desenho já nervoso e dramático”.

Enfim, a exposição 19 Pintores representou a oportunidade para que aqueles jovens artistas obtivessem maior reconhecimento no cenário artístico brasileiro. Sem constituírem um grupo ou um movimento estético programaticamente definido, porém, seus integrantes dispersaram-se após a mostra, trilhando caminhos individuais.


Fontes
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbete: Grupo dos 19, p.233; Flávio-Shiró, p.196).
- Itaú Cultural – Verbete: 19 pintores.
<http://www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopedia_IC/index.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=3773>
- ALMEIDA, Paulo Mendes de. De Anita ao Museu. São Paulo: Perspectiva, 1976.