Grupo Guanabara
André Luiz Faria Couto
Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


Grupo Guanabara, V. Mecozzi Natureza morta

Grupo de artistas formado na cidade de São Paulo, no final da década de 1940, e ativo por todo o decênio seguinte, em torno do pintor japonês Tikashi Fukushima (1920-2001), que ministrava aulas em seu ateliê de pintura e oficina de moldura, situado no antigo Largo Guanabara, onde posteriormente seria construída a estação Paraíso do Metrô paulistano.

Fukushima chegou ao Brasil em 1940, quando tinha vinte anos de idade, estabelecendo-se, a princípio, nas cidades de Pompéia e Lins, no interior de São Paulo, onde trabalhou no comércio. Data dessa época o início de seus estudos de pintura. Em 1946, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde foi assistente do pintor e moldureiro Tadashi Kaminagai, cuja molduraria, anexa à Pensão Mauá, no bairro de Santa Teresa, era um ponto de encontro de artistas estrangeiros recém-chegados ao Rio de Janeiro, emigrados por conta da II Guerra Mundial. Em 1949 Fukushima fixou-se em São Paulo, onde montou a molduraria do largo Guanabara, que logo se tornaria uma referência importante entre os pintores paulistanos, atraídos pela excelência do trabalho lá realizado. Por essa época, ingressou no Grupo Seibi, agremiação composta exclusivamente por artistas de origem nipônica, fundada em 1935, também na capital paulista. Nos anos seguintes, Fukushima participaria de importantes eventos de artes plásticas, como diversas edições do Salão Paulista de Arte Moderna, da Bienal de São Paulo e do Salão Nacional de Arte Moderna (prêmio de viagem ao país, em 1963); além de mostras no exterior, como a Bienal de Tóquio, em 1963, e uma exposição de artistas latinoamericanos, no Museu Guggenheim, em Nova York, em 1965. Sua pintura, a princípio de característica figurativa e impressionista, caminhou aos poucos para a abstração. Por volta de 1957, ainda durante as atividades do Grupo Guanabara, Fukushima aderiu ao Abstracionismo Informal, estilo a que se dedicaria até o final da vida e do qual se tornaria um dos grandes nomes no país. Sua obra passaria a explorar, como poucos, a textura da matéria, e a resgatar elementos da tradição figurativa nipônica, apropriados, porém, a partir das linguagens estéticas ocidentais. Como observa Hélio Alves Neves, mesmo após a adesão ao abstracionismo, a obra de Fukushima manteve “uma poesia literária nos gestos e nas cores, insinuando campos, montanhas, ventos e climas com pinceladas gestuais, sem formas geométricas, tendendo ao informalismo difuso”.


Grupo Guanabara, Kaminagai Ano Novo 1942

O Grupo Guanabara chegou a contar com 34 integrantes. Entre eles, um grande número de japoneses: Yoshiya Takaoka, Yuji Tamaki, Tomoo Handa, Walter Shigeto Tanaka, Kichizaemon Takahashi, Hajime Higaki, todos fundadores do Grupo Seibi, que então continuava em atividade; além de Takeshi Suzuki, Kenjiro Massuda, Jorge Mori, Alina Okinaka, Massao Okinaka, Hideomi Ohara, Manabu Mabe, Mari Yoshimoto, Masanosuke Hashimoto, Tsukika Okayama e Tomie Ohtake, muitos dos quais também pertenciam ao Grupo Seibi e ao Grupo 15 (ou do Jacaré), criado também no final dos anos 1940, na cidade de São Paulo, em torno de Takaoka. Além dos artistas de origem nipônica, faziam parte também do Grupo Guanabara os irmãos Arcangello e Thomaz Ianelli, o casal Armando e Alzira Pecorari, Ernestina Karman, Francisco Cuoco, Ismênia Coaracy, Maria José Calheiros de Mattos (Marjô), Norberto Nicola, Oswald de Andrade Filho, Sofia Tassinari, Vicente Mecozzi e Wega Nery.

Os membros do Grupo Guanabara costumavam promover excursões aos arredores da cidade para pintar as paisagens suburbanas, como gostavam de fazer, na década de 1940, os integrantes do Grupo Santa Helena. Tal como esse, aliás, o Grupo Guanabara também não apresentava programas ou manifestos, nem se identificava com uma corrente estética específica. Era composto por artistas já iniciados na arte moderna, abertos, portanto, às inovações estéticas, mas que não desprezavam a tradição.



Grupo Guanabara, T. Fukushima Abstrato

Ao longo de sua existência, o Grupo Guanabara realizou cinco exposições, todas na capital paulista. A primeira realizou-se na Galeria Domus, em 1950. Na segunda, no ano seguinte, na sede paulista do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-SP), foram expostas obras recusadas no 16° Salão Paulista de Belas Artes. A terceira, em 1953, ocorreu no próprio ateliê de Fukushima. A quarta, na Associação Cristã dos Moços, em 1958, contou com catálogo e palestras promovidas pelos críticos de arte Lourival Gomes Machado e Sérgio Milliet. Por fim, a quinta e última foi realizada no mesmo local, em 1959. Em seguida, o grupo se dissolveu.

O Grupo Guanabara representou uma das últimas manifestações de uma tendência que marcou fortemente a vida artística paulistana desde o início da década de 1930, a da formação de grupos para a troca de informações e experiências, visando o aperfeiçoamento técnico de seus integrantes e a ampliação de sua visibilidade enquanto artistas. Essa tradição, iniciada com a Sociedade Pró-Arte Moderna e o Clube de Arte Moderna, de 1932, passaria pelo já citado Grupo Santa Helena e pela Família Artística Paulista, ativos da segunda metade dos anos 1930 ao início da década seguinte, ambos com forte presença da colônia italiana; chegando ao próprio Grupo Seibi, que estenderia suas atividades até o início dos anos 1970.

Em 1992 o Grupo Guanabara foi tema de uma mostra retrospectiva, realizada no Escritório de Arte Renato Magalhães Gouvêa, em São Paulo.


Fontes
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbetes: Fukushima, Tikashi, p.210; Grupo Guanabara, p.234).
- Itaú Cultural – Verbete: Grupo Guanabara e Tikashi Fukushima.
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=busca_completa>
- ART-BONO. Tikashi Fukushima. <http://www.art-bonobo.com/artesimig/fukushima.html>