Grupo Ruptura
André Luiz Faria Couto
Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


Grupo Ruptura, Judith Lauand Abstração

Grupo de artistas surgido na cidade de São Paulo, em 1952, reunindo os pioneiros do Concretismo no Brasil. Liderado por Waldemar Cordeiro, seu porta-voz e principal teórico, o grupo era, a princípio, formado também por Geraldo de Barros, Luís Sacilotto, Lothar Charroux, Kazmer Fejer, Anatol Wladslaw e Leopoldo Haar, recebendo a adesão posterior de Hermelino Fiaminghi, Judith Lauand e Maurício Nogueira Lima.

O surgimento no Brasil dos primeiros núcleos de artistas abstratos, defensores da completa dissociação entre a obra artística e a representação figurativa da realidade, data dos últimos anos da década de 1940, simultaneamente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Na capital paulista, a afirmação do Abstracionismo foi favorecida pela criação de importantes espaços institucionais receptivos às novas tendências estéticas europeias e norteamericanas, como o Museu de Arte de São Paulo (MASP), em 1947; o Museu de Arte Moderna (MAM-SP), que abriram suas atividades ao público em 1949, com a exposição Do Figurativismo ao Abstracionismo; e a Bienal Internacional de São Paulo, cuja primeira edição realizou-se em 1951. Também cumpriu papel decisivo na atualização do universo cultural paulista, naquele período, a presença de artistas recém-chegados do exterior, como o próprio Waldemar Cordeiro, vindo da Itália, onde nasceu; e do romeno Samson Flexor, cuja atuação como professor no Ateliê Abstração, por ele criado, foi muito importante para a introdução do Abstracionismo Geométrico no país. Para a formação do Grupo Ruptura, em particular, teve grande significado a exposição do artista plástico suíço Max Bill, um dos principais teóricos mundiais do Concretismo, realizada no MASP, em 1950, bem como a forte presença de artistas identificados com essa corrente nas Bienais realizadas ao longo daquela década.

Segundo os princípios do Concretismo, movimento criado no início dos anos 30 pelo holandês Theo Van Doesburg, como uma vertente do Abstracionismo Geométrico, a obra de arte deve ser a concretização de uma idéia previamente formulada com base em princípios racionais e universalmente inteligíveis. Na construção do objeto artístico, defendem os concretistas, devem ser utilizados exclusivamente elementos de natureza plástica, como planos, linhas e cores, relacionados de acordo com uma lógica matemática e geométrica, interna à própria obra; que fica, assim, afastada de qualquer conotação simbólica. Radicalmente racionalista, o Concretismo almeja uma arte vinculada aos avanços científicos e tecnológicos, plenamente inserida na sociedade industrial.

No Brasil, como em outros lugares, a implantação da arte abstrata não se deu sem conflitos e polêmicas. Os ataques, por vezes violentos, dos abstracionistas brasileiros à arte figurativa eram respondidos, também com virulência, por aqueles que identificavam no Abstracionismo uma alienação da realidade, acusando-o de subjetivismo exacerbado e hermetismo elitista. Mas, em que pese a força que então possuíam as correntes figurativas na arte brasileira, em especial aquelas vinculadas a um certo Expressionismo modernista com preocupações sociais, que podemos genericamente designar de Realismo Social, havia também, ao menos no Rio de Janeiro e em São Paulo, um espaço considerável para o desenvolvimento das vanguardas abstracionistas. Segundo acreditavam seus adeptos, a difusão do Concretismo no Brasil associava-se aos esforços e expectativas de superação do nosso subdesenvolvimento econômico, cultural e tecnológico, estando em linha, pois, com o processo de industrialização e urbanização então vivido pelo país, especialmente na segunda metade da década de 1950, período marcado pela ideologia desenvolvimentista do governo de Juscelino Kubitschek.


Grupo Ruptura, Luiz Sacilotto Concreção

Já no manifesto Ruptura – redigido por Waldemar Cordeiro e lançado por ocasião da primeira e única exposição do grupo, inaugurada em 9 de dezembro de 1952, no MAM-SP – nota-se a preocupação dos concretistas paulistas em criticar não só a arte figurativa, mas também as outras correntes abstracionistas. Pretendendo reservar para si o monopólio das iniciativas renovadoras que então ocorriam na arte brasileira, os signatários do manifesto, ao criticarem todos aqueles “que criam formas novas de princípios velhos”, procuram atingir não só o naturalismo figurativo, no qual incluem “o naturalismo ‘errado’ das crianças, dos loucos, dos ‘primitivos’, dos expressionistas, dos surrealistas”, mas também o abstracionismo informal ou lírico, que então também se expandia, pejorativamente caracterizado como “não-figurativismo hedonista, produto do gosto gratuito, que busca a mera excitação do prazer ou do desprazer”. Em que pesem tais divergências, porém, no ano seguinte os integrantes do Grupo Ruptura participariam da Exposição Nacional de Arte Abstrata, realizada em Petrópolis, que contou também com a presença dos abstracionistas informais.

Os princípios do Concretismo paulista seriam defendidos ainda por Waldemar Cordeiro em outros textos, com destaque para o artigo O objeto, de 1956, no qual o autor procura oferecer uma síntese do pensamento daquela corrente. Segundo Ligia Canongia, o Grupo Ruptura propunha “uma produção informada pelo saber científico, compatível com o progresso e os novos meios de comunicação. Com base, portanto, na ciência e na tecnologia, o Concretismo propôs formas programadas, sistemáticas e seriais, que obedeciam, na maioria das vezes, a uma organização simétrica. A idéia era de que a obra de arte guardasse características condizentes com o espírito rígido e modular da mecânica industrial, estabelecendo um sistema de comportamento das formas que equivalia ao da máquina. O artista seria, assim, uma espécie de designer da forma, aquele que planeja uma comunicação acessível e imediata por meio do ‘vocabulário’ geométrico.” Geiger e Cocchiaralle, por sua vez, assinalam que os concretistas paulistas pretenderam, em sua produção artística, “excluir a representação em todos os níveis, inclusive o da expressão, eliminando com isso qualquer vestígio de subjetividade”. Ainda de acordo com esses autores, que destacam o papel exercido pela teoria entre os integrantes do grupo paulista, “a plástica concretista hierarquiza as diferenças entre forma, considerada essencial; cor, sempre pensada a partir das exigências formais; e fundo, tratado na maior parte das obras como o lugar sobre o qual a forma se realiza. A forma, quase sempre seriada, implica uma idéia rítmico-linear do movimento, e a cor, a ela subordinada, é basicamente elementar”.


Grupo Ruptura, Waldemar Cordeiro

Esse apego dos concretistas paulistas às formulações teóricas e racionalistas revela uma postura mais ortodoxa do que a assumida pelo outro núcleo do Concretismo brasileiro, o Grupo Frente, formado no Rio de Janeiro em torno de Ivan Serpa. Para esses, embora também fossem partidários de uma arte construtiva e racionalista, não era desejável uma completa rejeição da subjetividade no trabalho artístico. As divergências entre os dois grupos se evidenciariam a partir da Exposição Nacional de Arte Concreta, realizada, em dezembro de 1956, na capital paulista, e, no início do ano seguinte, no Rio de Janeiro. Enquanto os cariocas negavam-se a rejeitar o papel da intuição e da subjetividade na construção da obra de arte, os paulistas os criticavam por compreenderem mal os princípios teóricos da arte concreta, desenvolvendo, por conta disso, uma prática equivocada, presa ainda às velhas concepções formais.

Em 1959, como desdobramento do Grupo Frente, surgiria no Rio de Janeiro a dissidência Neoconcreta que, em confronto aberto com os paulistas, denunciava a “perigosa exacerbação racionalista” assumida pelo movimento concretista. Segundo Geiger e Cocchiarale, “as diferenças entre os grupos concretistas de São Paulo e do Rio têm sua origem na interpretação teórica e prática que cada um deles fez de sua inserção nas questões internacionais da arte concreta”. Assim, enquanto o Grupo Ruptura “procurou sempre referenciar sua prática aos problemas teóricos do Concretismo desenvolvido por Max Bill e pela escola de Ulm, na Alemanha, o Grupo Frente, do Rio, (...) cultivou desde sua constituição grande autonomia em relação a estes problemas”.

O Grupo Ruptura, que começou a se dispersar no final da década de 1950, teve um papel decisivo na afirmação do Abstracionismo Geométrico no Brasil, pautando boa parte dos debates sobre a arte ocorridos no país até o início da década de 1960, em que pese uma forte dose de dogmatismo presente na atuação de alguns de seus integrantes. Por suas preocupações de ordem essencialmente formais, assumiram eles, de fato, um papel de vanguarda na arte brasileira, superando a discussão em torno das questões ligadas à identidade nacional e à realidade social, tão caras ao Modernismo brasileiro. O caráter marcadamente inovador do grupo é confirmado, ainda, pela adesão dos poetas Décio Pignatari, Haroldo de Campos e Augusto de Campos, pioneiros da poesia concreta, que buscavam uma radical renovação da linguagem poética a partir dos efeitos estéticos obtidos com a disposição geométrica dos poemas no papel.

Por outro lado, devemos ter claro que a inegável importância do Grupo Ruptura na história da arte brasileira não pode obscurecer o fato do universo do Abstracionismo no país ter abarcado muitos outros artistas, como os integrantes do já referido Grupo Frente, que além de Ivan Serpa inclui os importantes nomes de Abraham Palatnik, Lígia Clark e Helio Oiticica, entre outros; diversos abstracionistas geométricos não vinculados a grupos, como Mira Schendell, Alfredo Volpi, Milton Dacosta e Sérgio Camargo, para citarmos apenas alguns; e ainda os artistas que compuseram o vasto campo do Abstracionismo Informal ou Lírico, que se desenvolveu exclusivamente através de trajetórias individualizadas, como Iberê Camargo, Antônio Bandeira, Tomie Othake, Fayga Ostrower e muitos outros.

 

Fontes
- CANONGIA, Ligia. Abstração Geométrica – Concretismo. In: Abstração Geométrica. Rio de Janeiro: SESC, s.d. 
- COCCHIARALE, Fernando; GEIGER, Anna Bella. Abstracionismo geométrico e informal: a vanguarda brasileira nos anos cinqüenta. Rio de Janeiro: FUNARTE / Instituto Nacional de Artes Plásticas, 1987.
- RUPTURA (manifesto). In: Abstração Geométrica 1: Concretismo e Neoconcretismo. Rio de Janeiro: Funarte, 1987.
- Itaú Cultural. Verbete: Grupo Ruptura
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=marcos_texto&cd_verbete=337&lst_palavras=&cd_idioma=28555&cd_item=10>