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GRUPO SANTA HELENA
André Luiz Faria Couto

Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


F. Pennacchi, Familia

Grupo de pintores que instalaram seus ateliês em salas do (hoje demolido) edifício Santa Helena, situado na Praça da Sé, na capital paulista, em meados da década de 1930. Pertencentes todos a famílias de imigrantes, de condição social modesta, os integrantes do grupo ganhavam a vida, por essa época, exercendo ofícios artesanais, especialmente a pintura decorativa de interiores. O primeiro a se estabelecer no também chamado palacete Santa Helena, em 1934, foi Francisco Rebolo Gonzales, a quem logo se juntou Mário Zanini. Ambos frequentavam, então, um curso noturno de desenho na Escola Paulista de Belas Artes. O grupo tomaria forma entre 1935 e 1937, quando outros artistas-artesãos se uniram a eles; por ordem de chegada: Manoel Martins, Fulvio Pennacchi, Aldo Bonadei, Clóvis Graciano, Alfredo Volpi, Humberto Rosa e Rullo Rizzotti. Alguns integrantes do grupo eram autodidatas, mas a maioria deles tivera uma formação artística básica em escolas profissionalizantes, como o Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. A profícua experiência do ateliê coletivo no edifício Santa Helena não foi longa, e já no início dos anos 40 o conjunto havia sido desfeito. Seus integrantes, porém, manteriam contatos artísticos e pessoais por toda a vida.


Clovis Graciano, Mulher ajoelhada

O surgimento do Grupo Santa Helena se dá no contexto da renovação ocorrida no interior do Modernismo brasileiro nas décadas de 1930 e 1940. Se a primeira geração modernista, a da Semana de 22, havia se caracterizado por uma postura iconoclasta, preocupada essencialmente em demolir a arte acadêmica e rejeitar agressivamente os seus cânones, coube à geração seguinte fazer o debate sobre como dar continuidade ao movimento renovador. Assim, se alguns mantinham-se ainda essencialmente preocupados em afirmar uma linha vanguardista - como os que se reuniam na Sociedade Pró-Arte Moderna, fundada em 1932, por Lasar Segall, ou no Clube dos Artistas Modernos, criado no mesmo ano por Flávio de Carvalho – outros, por considerarem que a apropriação das inovações formais e temáticas promovidas pelo Modernismo não devia ser acompanhada pelo abandono do apuro técnico na fatura das obras, negavam-se a menosprezar o que, nesse campo, havia se desenvolvido ao longo da história da arte. Era com esse modernismo mais contido que os integrantes do Grupo Santa Helena se identificavam; assim também o faziam os artistas que, no Rio de Janeiro, se reuniam no Núcleo Bernardelli, desde 1931. Alguns importantes espaços expositivos criados no período refletiam esse debate sobre os rumos da arte moderna no Brasil, como indicam a realização, na capital paulista, dos Salões de Maio, entre 1937 e 1939, dominados pelos vanguardistas, e as exposições da Família Artística Paulista, ocorridas entre 1937 e 1940, nas quais predominavam os moderados; e ainda a evolução do Salão Paulista de Belas Artes, originalmente identificado com uma arte de feitio mais acadêmico, mas que acabou por absorver gradualmente as tendências modernistas, até fazê-las dominantes em seu interior. Deve-se notar que as fronteiras entre esses campos estilísticos não eram rígidas, o que permitia que alguns destacados artistas do período circulassem pelas diversas mostras então realizadas.


Mario Zanini, Paisagem

Num primeiro momento, os integrantes do Grupo Santa Helena estiveram praticamente à margem do circuito das artes plásticas. Nem acadêmicos, nem identificados com os modernistas mais convictos - nenhum deles frequentou, por exemplo, a Sociedade Pró-Arte Moderna ou o Clube dos Artistas Modernos – apresentavam-se, a princípio, em mostras e salões onde predominava a arte acadêmica, como o já citado Salão Paulista de Belas Artes. E foi numa dessas mostras, a Exposição de Pequenos Quadros, promovida pela Sociedade Paulista de Belas Artes, em outubro de 1936, que os integrantes do grupo foram notados por Vittorio Gobbis e Paulo Rossi Osir, artistas de sólida formação erudita, que passaram, então, a visitar com certa frequência o ateliê da Praça da Sé. No ano seguinte, por iniciativa de Rossi Osir, seria realizada a I Exposição da Família Artística Paulista (FAP), que teve destacada presença dos integrantes do Santa Helena, bem como de Anita Malfatti, Hugo Adami e Valdemar da Costa, entre outros. Mas o prestígio do grupo ganharia impulso maior,  principalmente a partir da II Exposição da FAP, em 1939, quando recebeu elogios do crítico e escritor Mário de Andrade, em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo a 2 de julho daquele ano. Nessa ocasião, o escritor paulista explicitou pela primeira vez sua percepção quanto à existência, em São Paulo, de uma corrente artística situada entre o vanguardismo dos primeiros modernistas e o academismo ainda vigente na cidade. O elemento unificador desse grupo, dizia Mário, era a preocupação com o pleno domínio das técnicas pictóricas e a busca de uma representação original e autoral da realidade concretamente vivida. Seria novamente Mário de Andrade quem, em artigo dedicado a Clóvis Graciano, em 1944, destacaria que a “psicologia coletiva” do grupo Santa Helena, e consequentemente a sua identidade expressiva, técnica e temática, era determinada pela origem proletária de seus integrantes. O grupo participaria ainda com destaque da terceira e última edição da FAP, realizada no Rio de Janeiro, em 1940, podendo-se afirmar que seus integrantes constituíram o núcleo mais consistente e expressivo daquele importante salão.


Aldo Bonadei

O Grupo Santa Helena não foi um movimento e jamais contou com qualquer programa ou manifesto. É de se notar, inclusive, que durante o período em que seus integrantes estiveram instalados no antigo prédio no centro da capital paulista, não se realizou nenhuma exposição coletiva que os identificasse com esse nome. A denominação, ao que parece, foi utilizada pela primeira vez pelo escritor Sérgio Milliet, em artigo sobre Rebolo e Zanini publicado n’O Estado de São Paulo, em 1941, exatamente na época em que o ateliê coletivo se desfazia. Como já foi dito, seus integrantes caracterizavam-se pela busca do aprimoramento técnico, o que os levou ao pleno domínio do desenho, da composição e da técnica pictórica, mostrando também uma constante disposição para a pesquisa formal. Em seus ateliês promoveram debates sobre arte, praticaram o desenho e a pintura, e dividiram experiências de vida e de trabalho, partilhando convicções estéticas não acadêmicas, mas também autônomas em relação às correntes modernistas já estabelecidas. Segundo Teixeira Leite, os artistas do Santa Helena “uniram-se, por bem pouco tempo, por circunstâncias fortuitas, e tinham em comum a origem proletária e o apego à tradição artesanal da pintura”. Num sentido semelhante, o crítico Walter Zanini afirma que os membros do grupo aproximaram-se por “afinidades de origem social e ocupação profissional e o desejo de intercambiar conhecimentos”. De fato, ao contrário da maioria dos artistas da primeira geração modernista que, por sua origem social abastada, puderam viajar e ter contato direto com a arte de vanguarda europeia, os artistas do Santa Helena só puderam ter acesso a essas tendências renovadoras através de livros e revistas, ou pelas exposições que aqui chegavam.


Alfredo Volpi

O grupo apresentava também, e de forma muito particular, uma das características mais marcantes da segunda geração modernista, o desejo de retratar a vida do povo. Para isso, nos finais de semana realizavam excursões à periferia de São Paulo para praticarem pintura ao ar livre e representarem a vida da gente anônima dos subúrbios. Como diz Walter Zanini, tinham “como objeto de representação e ponto principal de referência uma visão física, humana e social muito particular do meio paulistano”. Também pequenas localidades do interior e do litoral paulista foram visitadas nessa busca pela representação da vida brasileira; aspecto assim destacado pela Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais: “o apego à representação da realidade leva-os a pintar principalmente paisagens, cujos focos são as vistas dos subúrbios e arredores da cidade, as praias visitadas nos fins de semana, a paisagem urbana. Percebe-se a preferência por locais anônimos no limite entre o campo e a cidade. A despeito das diferenças estilísticas entre eles, identifica-se em suas obras uma preferência por tons rebaixados, de fatura fosca, dando uma tonalidade acinzentada aos quadros”.


Rebolo Gonzales, Autorretrato

Extinto o ateliê coletivo no início da década de 1940, os integrantes do Grupo Santa Helena tiveram, quase todos, notável trajetória artística, sendo com frequência incluídos entre os principais pintores brasileiros do século XX. Volpi, o que provavelmente alcançou maior notoriedade como artista, produziu vasta obra ao longo de quase sete décadas, numa das trajetórias mais longevas da arte brasileira. Por vezes próximo da expressão abstrata, que incluiu uma breve aproximação com os concretistas nos anos 50, notabilizou-se sempre pela busca da simplicidade e pela valorização da cor. Rebolo também deixou uma obra marcadamente autoral, na qual a simplicidade e o despojamento, presentes em suas frequentes representações da paisagem paulistana, não desaparecem, antes se afirmam, diante de seu aperfeiçoamento como artista. A paisagem paulistana também foi tema recorrente na obra de Mário Zanini, que a representou num “colorido intenso, profundo, quase fauve”, o que o faz, “ao lado de Volpi, um dos grandes coloristas da moderna pintura brasileira”, no dizer de Teixeira Leite. Aldo Bonadei transitou da paisagem estilizada, na qual se identifica nítida influência de Cézanne, para as naturezas-mortas que o fizeram se aproximar pioneiramente do abstracionismo no Brasil, ainda na década de 1940. Clovis Graciano, por sua vez, produziu uma obra marcada pela figuração humana de forte caráter expressionista, na qual se nota a influência de Portinari.

Como já foi dito, nenhuma exposição específica do Grupo Santa Helena foi realizada durante o período em que seus integrantes trabalhavam juntos no antigo edifício do centro de São Paulo. Isso só viria a ocorrer em 1966, quando a Galeria de Arte 4 Planetas, em São Paulo, realizou a mostra O Grupo Santa Helena, que contou com texto de apresentação do crítico Paulo Mendes de Almeida. Outra mostra seria realizada em 1975, no Paço das Artes, também na capital paulista. Em 1995, o Museu de Arte Moderna de São Paulo organizou nova exposição sobre o grupo, com 105 obras, que no ano seguinte foi levada ao Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro.

Fontes
- AJZENBERG, Elza. Grupo Santa Helena. 19&20, Rio de Janeiro, v. III, n. 4, out. 2008. Disponível em: <http://www.dezenovevinte.net/artistas/artistas_gsh.htm>
- ALMEIDA, Paulo Mendes de. De Anita ao Museu. São Paulo: perspctiva, 1976. (pp. 129-140)
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbetes: Grupo do Santa Helena, p.235).
- ZANINI, Walter. 60 anos do Grupo Santa Helena. In: O Grupo Santa Helena (folder de exposição realizada no Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, jan—mar/1996.
- Itaú Cultural. Verbetes: Grupo Santa Helena; Rossi Ozir
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm>

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