Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro
André Luiz Faria Couto
Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).

Instituição de ensino profissionalizante criada na cidade do Rio de Janeiro, em 23 de novembro de 1856, com o objetivo de formar artífices e operários industriais especializados. Desde sua fundação, o Liceu foi mantido pela Sociedade Propagadora das Belas Artes (SPBA), fundada na mesma ocasião. Suas atividades, oficialmente iniciadas com a inauguração solene da escola, em 9 de janeiro de 1858, se estendem até os dias de hoje.


Francisco Bethencourt da Silva

Segundo os princípios pedagógicos que orientaram a criação do Liceu, seus alunos deveriam receber, além de uma sólida aprendizagem técnica relativa ao seu ofício, possibilitada pelas aulas práticas ministradas em suas oficinas, uma formação teórica de cunho humanístico, que contemplasse o domínio das linguagens artísticas e o interesse pelas questões estéticas. A fundação da escola se deu com base na convicção, então muito em voga, de que as modernas cidades industriais precisam se desenvolver incorporando princípios funcionais e estéticos à sua vida cotidiana, o que explica a ênfase dada em suas aulas à aproximação entre indústria e arte. Assim, ao mesmo tempo em que oferecia aos seus alunos as disciplinas do ensino elementar (língua portuguesa, matemática, ciências naturais, história, geografia e línguas estrangeiras), o Liceu elevava o desenho, em suas diversas modalidades (geométrico, industrial, artístico, arquitetônico), à condição de disciplina central na grade curricular da maioria de seus cursos.

O principal incentivador do Liceu foi o prestigiado arquiteto e educador Francisco Joaquim Bethencourt da Silva, homem de vasta cultura, discípulo de Grandjean de Montigny na Academia Imperial de Belas Artes (AIBA) e responsável por diversas obras públicas realizadas no Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX e na primeira década do seguinte, entre as quais o edifício da antiga Bolsa de Comércio, onde hoje funciona a sede do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Entusiasta do papel da educação e da arte no aprimoramento humano, Bethencourt permaneceria à frente Liceu até à sua morte, em 1911.

Segundo sua ata de fundação, a SPBA e o Liceu foram fundados numa assembléia convocada por Bethencourt da Silva, à qual compareceram 99 pessoas, entre as quais professores, artistas, médicos, advogados, funcionários públicos, escritores, jornalistas, militares, negociantes e artesãos, muitos dos quais ocupavam posições sociais de relevo no Rio de Janeiro. Na ocasião, Bethencourt da Silva defendeu a importância de se criar uma instituição com tal perfil, apresentou uma proposta de estatuto que foi votada e aprovada pelos presentes e anunciou o nome dos professores que haviam se comprometido a dar aulas no Liceu. Muitos dos fundadores comporiam a diretoria e o corpo docente inicial da instituição, cujas atividades não eram remuneradas; tradição essa que, segundo Alba Bielinski, manteve-se até por volta de 1930. Entre os professores do Liceu relacionam-se importantes nomes da arte brasileira, como os pintores Agostinho José da Mota, Francisco Antônio Néri, Pedro Peres, Oscar Pereira da Silva e Vitor Meireles, tendo esse último ali ensinado desenho entre os anos de 1867 e 1903, período ao longo do qual exerceu forte influência sobre os métodos de ensino dessa disciplina. Também integraram o corpo docente da instituição os escultores Quirino Antonio Vieira e Severo Quaresma, o gravador Carlos Oswald, o mestre de desenho da Academia da Marinha José dos Reis Carvalho, e o desenhista da Inspeção das Obras Públicas Mariano José d’Almeida.


Reis Carvalho aquarela

Além de manter o Liceu de Artes e Ofícios, a SPBA publicou a revista O Brasil Artístico, lançada em 1857, e realizou notáveis mostras de artes plásticas, o que fez de sua sede um importante espaço expositivo na então capital do país, só superado, nesse sentido, pela AIBA. A primeira Exposição Geral de Belas Artes da Sociedade Propagadora, por exemplo, aberta em março de 1882, com a presença do imperador Pedro II, reuniu mais de 400 obras, entre pinturas, desenhos, projetos de arquitetura, gravuras, esculturas e fotografias. Entre os expositores estavam artistas brasileiros e estrangeiros radicados no país, como Vitor Meireles, Belmiro de Almeida, Décio Vilares, Ângelo Agostini, Chaves Pinheiro e Marc Ferrez, entre muitos outros. É de se notar que foi nessa mostra que o pintor alemão Georg Grimm expôs pela primeira vez no Brasil suas telas pintadas ao ar livre, que teriam grande repercussão sobre os rumos da pintura de paisagens no país.

No seu primeiro ano de funcionamento (1858), as aulas do Liceu foram ministradas em salas a ele cedidas na Igreja do Santíssimo Sacramento, na avenida Passos, centro da cidade. No ano seguinte, as aulas foram transferidas para a Igreja de São Joaquim, situada na então chamada Rua Larga de São Joaquim, atual Marechal Floriano, templo que já então encontrava-se desativado, aguardando demolição. Nesse local realizou-se, em janeiro de 1859, a primeira exposição de alunos do Liceu, tradição que se mantém até à atualidade. Mantido inicialmente apenas pelas doações de seus beneméritos, o Liceu chegou a interromper suas atividades entre 1863 e 1865, por conta de dificuldades financeiras. O amplo apoio social de que desfrutava, no entanto, o salvou. Em 1871, a instituição recebeu o título de Imperial, concedido pelo imperador Pedro II o que, mais do que uma comenda honorífica, significava o reconhecimento oficial da importância da entidade, conferindo-lhe maior legitimidade. Em 1877, a escola finalmente instalou-se num espaço a ela especialmente destinado, um edifício cedido pelo governo imperial, localizado na atual Rua 13 de Maio, onde anteriormente funcionara a Secretaria de Estado dos Negócios do Império. Nas décadas seguintes, o Liceu incorporaria progressivamente, através de doações, novos terrenos em seu entorno, chegando a ocupar uma área de cerca de cinco mil metros quadrados no valorizado quarteirão formado pela Avenida Central (atual Rio Branco) e pelas ruas Santo Antonio, 13 de Maio e Barão de São Gonçalo.


Agostinho José da Mota Fábrica do Barão de Capanema

O prestígio do Liceu cresceria nas décadas finais do século XIX. Em 1882, foi criado na instituição o Curso Comercial, que durante muito tempo foi o único nessa área a funcionar no país. Em 1885, a escola foi agraciada com o Diploma de Honra na Exposição Internacional de Londres, prêmio que voltaria a ser conquistado nas edições seguintes da Exposição, realizadas em Chicago e Filadélfia. Em novembro de 1906, em concorrida solenidade na qual estiveram presentes o presidente da República Afonso Pena e o arcebispo do Rio de Janeiro, cardeal Arcoverde, além de outras autoridades públicas e numeroso contingente de populares, foi lançada a pedra fundamental do novo edifício do Liceu, na Avenida Rio Branco, projetado pelo próprio Bethencourt da Silva. A construção do prédio só seria efetivamente iniciada, porém, em 1910, sendo concluída em 1926.

Por oferecer cursos gratuitos, o Liceu garantiu o acesso de muitas pessoas de baixa renda ao ensino formal, numa época em que apenas uma pequena parcela da população brasileira tinha possibilidade de frequentar a escola. Direcionado, de acordo com sua ata de fundação, aos homens livres nacionais e estrangeiros, o Liceu inaugurou suas primeiras turmas, em janeiro de 1858, com 351 alunos matriculados. Segundo a Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais, do início de suas atividades até o ano de 1954, a instituição matriculou a expressiva soma de 279.130 alunos. A escola cumpriu também papel importante na democratização do ensino por oferecer cursos noturnos, algo até então praticamente inexistente no país. Segundo Bethencourt da Silva, em discurso pronunciado na reunião que criou o Liceu, era necessário dar oportunidades àqueles que, em virtude “de suas profissões, da falta de recursos pecuniários e, ainda mais, da carência de tempo diurno, não tivessem meios de instruir-se”. Assim, ao promover a formação de milhares de artesãos qualificados (marceneiros, carpinteiros, estucadores, ourives, gravadores, tapeceiros, etc), o Liceu preenchia parte da lacuna existente na sociedade carioca, culturalmente cindida entre uma pequena elite letrada e bacharelesca e uma ampla massa analfabeta. Em 1881, o Liceu passou a admitir a entrada de mulheres em seus cursos.

A preocupação com as questões estéticas, que como já se disse constituía um dos pilares do ensino ministrado pela escola, possibilitaria, por sua vez, que muitos de seus alunos iniciassem ali sua formação artística. Alguns deles, inclusive, viriam a ocupar posições de destaque na arte brasileira, como Rodolfo Amoedo, Belmiro de Almeida, Carlos Chambelland, Eliseu Visconti, Guttmann Bicho, Francisco Stockinger, José Maria de Medeiros, Modestino Kanto, Renina Katz e Rubens Gerchman, para citarmos apenas alguns. Além disso, nas dependências do Liceu foram realizados também alguns importantes eventos artísticos, como o I Salão de Humoristas, em 1916; a primeira exposição de gravura artística em metal realizada no Rio de Janeiro, com trabalhos do professor Carlos Oswald e seus alunos, em 1919; diversas exposições promovidas pelo Centro Artístico Juventas, posteriormente rebatizado de Sociedade Brasileira de Belas Artes, entidade que, embora atuasse no campo da arte acadêmica, procurava romper com o excessivo conservadorismo ainda vigente na agora chamada Escola Nacional de Belas Artes (ENBA, antiga AIBA); ou ainda a realização da I Exposição de Artes Plásticas e Decorativas alemãs, com obras trazidas ao Brasil por Theodor Heuberger, figura que cumpriria importante papel na renovação das artes plásticas no Rio de Janeiro, a partir da segunda metade da década de 1920. Por conta disso, ainda que a instituição jamais tenha pretendido deliberadamente cumprir um papel questionador no campo das artes plásticas, acabou por se constituir num espaço expositivo alternativo à ENBA, abrindo caminhos para que tendências estéticas renovadoras pudessem se expressar no Rio de Janeiro.

Com a morte de Bethencourt da Silva, em 1911, a direção do Liceu passou às mãos de seu filho, Bethencourt Filho, que também comandaria a instituição até à data de seu falecimento, em 1928. Durante sua gestão, foram inauguradas as oficinas gráficas, de douração, encadernação e o ateliê de água-forte.

Considerada, durante muitas décadas, a principal escola profissionalizante do Brasil, o Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro serviu de modelo para a criação de instituições similares em diversas cidades do país, como Salvador, São Paulo, Recife, Fortaleza, Juiz de Fora e Petrópolis, entre outras, ainda que nenhuma delas tivesse qualquer vínculo institucional com a escola carioca.

Atualmente, o Liceu funciona num prédio localizado na Rua Frederico Silva, na Praça Onze, oferecendo cursos de Educação Infantil, Ensino Fundamental, Ensino Médio, Educação de Jovens e Adultos, além da Educação Profissional.

Fontes
- BIELINSKI, Alba Carneiro. O Liceu de Artes e Ofícios - sua história de 1856 a 1906. 19&20, Rio de Janeiro, v. IV, n. 1, jan. 2009. Disponível em: <http://www.dezenovevinte.net/ensino_artistico/liceu_alba.htm>.
- Itaú Cultural - Verbete: Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro.
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=
marcos_texto&cd_verbete=3770&lst_palavras=&cd_idioma=28555&cd_item=10>
- LICEU de Artes e Ofícios (site oficial). http://www.liceudearteseoficios.com.br/
- MURASSE, Celina Midori. Industrialização e Educação: origens do Liceu de Artes e Ofícios.
<http://www.sbhe.org.br/novo/congressos/cbhe1/anais/037_celina_m.pdf>