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PRÓ-ARTE (SOCIEDADE PRÓ-ARTE DE ARTES, CIÊNCIAS E LETRAS)
André Luiz Faria Couto

Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


H. Nöbauer, Casa de Marília, Ouro Preto, 1928

Sociedade fundada no Rio de Janeiro, em março de 1931, pelo marchand e animador cultural alemão Theodor Heuberger, com a colaboração da pianista Maria Amélia Rezende Martins, do frei franciscano Pedro Sinzig e de outros intelectuais, com o objetivo de promover o intercâmbio cultural entre Brasil e Alemanha. Originalmente, a entidade recebeu a denominação de Sociedade Pró-Arte de Artistas e Amigos de Belas Artes, sendo rebatizada, em 1935, como Sociedade Pró-Arte de Artes, Ciências e Letras. Em 1942, em face do alinhamento do governo brasileiro com os países Aliados, na II Guerra Mundial, a Pró-Arte se viu forçada a suspender suas atividades. A entidade ressurgiria em 1947, após o término do conflito.

Theodor Heuberger, figura central da Pró-Arte em sua primeira fase, chegou ao Brasil pela primeira vez em 1924, quando tinha apenas 26 anos de idade, atendendo ao convite do cônsul-geral do Brasil em Munique, o pintor Mário Navarro da Costa, para aqui organizar uma exposição com obras de artistas alemães. Assim, em novembro daquele ano, foi aberta, no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, a I Exposição de Artes Plásticas e Decorativas, também chamada de Exposição de Arte e Arte Decorativa Alemã, que em seguida foi levada para as cidades de São Paulo, Campinas e Santos. Esteticamente, a mostra estava mais próxima da arte que se fazia na Alemanha nos primeiros anos do século do que das novas tendências que ganhavam terreno nos meios artísticos germânicos, de caráter expressionista. Segundo palavras do pesquisador Marcelo Lacombe, “as obras, sem dúvida, eram muito conservadoras ou de um modernismo muito tímido para causar algum tipo de espanto e celeuma; estavam, nesse sentido, muito bem adequadas ao padrão de gosto das elites e das oligarquias brasileiras da época, expressando, de certa forma, as disposições desses segmentos da sociedade em relação ao modernismo artístico na década de 20”. Por conta disso, a exposição alcançou significativa repercussão na imprensa e a maioria das obras expostas foi vendida, o que motivou Heuberger a dar continuidade ao trabalho de intercâmbio nos anos seguintes, quando novas exposições foram por ele organizadas no país. Nas mostras seguintes, porém, fez-se notar a presença crescente de obras de caráter modernista.


Kaethe Kollowitz, Viúvas e orfãos, 1919

A bem sucedida atividade de Heuberger como marchand, numa época em que o mercado de artes ainda se consolidava no país, levou-o a se fixar definitivamente no Rio de Janeiro, ainda na década de 20. Ali, abriu a Galeria Heuberger, umas das primeiras da cidade, situada no edifício da Associação dos Empregados do Comércio do Rio de Janeiro, na Avenida Rio Branco, que se tornaria um ponto de encontro de artistas e intelectuais cariocas. Em 1928, seu prestígio nos meios artísticos já lhe permitia organizar exposições na Escola Nacional de Belas Artes (ENBA). No ano seguinte, montou, no Rio e em São Paulo, a Exposição de Arte Decorativa Alemã, com peças de design arrojado. Em 1930, promoveu nova mostra, em que foram expostas gravuras expressionistas de Kaethe Kollwitz, Max Beckmann e Otto Dix.

Mas parece ter sido somente com a criação da Pró-Arte, em 1931, que Heuberger promoveu uma exposição exclusivamente composta com obras de artistas alemães radicados no Brasil, como Leo Putz, Hans Nöbauer, Friedrich Maron e Lothe Benther Bogdanoff, entre outros, e de brasileiros que haviam tido formação artística na Alemanha, como Alberto da Veiga Guignard e Paulo Rossi Osir. Realizada na ENBA, em maio de 1931, durante a curta gestão do arquiteto Lúcio Costa à frente da entidade, a exposição foi patrocinada pelas embaixadas da Alemanha, Áustria e Suíça. Sua temática dominante foi a representação feita do Brasil por aqueles artistas de formação germânica, que em suas paisagens rurais e urbanas e nos tipos humanos focalizados revelavam interesse pelo exótico.

Além de exposições de artes plásticas, a Pró-Arte desenvolveu, em sua primeira fase, um amplo leque de atividades, tais como a realização de concertos musicais, a organização de cursos e conferências sobre diferentes temas, a promoção de festas e concorridos bailes carnavalescos, a criação do Conservatório do Rio de Janeiro, que funcionou entre 1935 e 1939, e a publicação da revista bilíngue Intercâmbio, lançada em 1935. A direção artística da Sociedade foi entregue a Guignard, que permaneceu na função até 1937, período no qual ministrou aulas de pintura na sede da entidade. Esse conjunto de atividades conferiu prestígio à Pró-Arte, cujas atividades eram frequentadas por membros da alta sociedade carioca. Em 1935, a entidade passou a ser presidida por Max Fleiuss, prestigiado intelectual ligado ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Fora do Rio de Janeiro, Heuberger e Maria Amélia de Rezende Martins promoveram caravanas artísticas que levavam apresentações musicais e exposições de arte aos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Ao longo da década de 1930, a Pró-Arte abriu filiais em São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre.


Leo Putz, Autorretrato

A Pró-Arte nasceu fortemente identificada com as tendências estéticas modernistas, que então procuravam se afirmar no cenário cultural brasileiro. É o que se pode notar, por exemplo, no perfil inicialmente assumido pela revista Intercâmbio, em cujas páginas eram reproduzidas obras de arte de caráter modernista e publicados textos de escritores brasileiros envolvidos com os esforços de renovação da literatura nacional, como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Mário de Andrade, que eram traduzidos para o alemão. A revista recebia, porém, apoio financeiro da embaixada alemã no Brasil e, com a ascensão e consolidação do nazismo na Alemanha, começaram a surgir pressões para que ela se distanciasse dos valores estéticos modernistas. Assim, no decorrer da década de 30, a Pró-Arte e sua revista tiveram que se equilibrar entre sua posição inicial de identificação estética com o Modernismo e os compromissos assumidos com as agências oficiais do governo alemão, que garantiam a sua viabilidade econômica. Esses últimos se mostrariam mais fortes, e, com o avançar da década de 30, tornaram-se cada vez mais frequentes, nas páginas da revista, as matérias de exaltação do regime nazista. Em 1942, quando ganhava força no Brasil a pressão para que o governo rompesse com as potências do Eixo e se alinhasse aos Aliados na II Guerra, o jornal carioca Diário de Notícias publicou uma reportagem acusando a Pró-Arte de ser uma célula nazista no Brasil, financiada pela embaixada alemã, cujo objetivo seria desnacionalizar a nossa cultura. A precipitação dos acontecimentos levaria ao fechamento da entidade.

A Pró-Arte ressurgiria em 1947, novamente contando com apoio oficial, vindo agora do liberal e democrático regime implantado na República Federal da Alemanha, o que lhe permitia maior tranquilidade para atuar. A revista Intercâmio também voltou a circular, perdurando até a década de 1980. Nessa segunda fase, a entidade passaria a se dedicar prioritariamente, porém, às atividades musicais; enquanto que as artes plásticas, cujo papel fora destacado em sua primeira fase, ficava agora em segundo plano. Esse protagonismo alcançado no campo musical ficou evidente já em 1950, quando foi criado pela entidade, na cidade fluminense de Teresópolis, os Cursos Internacionais de Férias, realizados anualmente. A direção artística do evento ficou a cargo do maestro alemão Hans-Joachim Koellreutter (1915-2005), radicado no Brasil desde 1937, e que seria responsável por grandes inovações no ensino musical no país. Ao longo da década, os cursos tiveram a presença de ilustres personalidades da música brasileira e internacional, como os maestros brasileiros Heitor Villa-Lobos e Alberto Jaffé, o compositor austríaco Ernst Krenek, os pianistas alemães Karl Ulrich Schnavel e Carl Seeman, e o pianista espanhol Tomás Terán. Participaram também, como conferencistas, importantes intelectuais brasileiros de outras áreas, como o arquiteto Oscar Niemeyer, os críticos de arte Mário Pedrosa e Mário Barata, e os poetas Manuel Bandeira e Guilherme Figueiredo. Primeiro evento dessa natureza no Brasil, os cursos de Teresópolis serviriam de modelo para outros festivais de férias que mais tarde seriam criados no país, como os de Ouro Preto, Porto Alegre, Curitiba e Campos do Jordão. Sua última edição ocorreu em 1989.

São também dos anos 50 os importantes Seminários de Música Pró-Arte, criados nas cidades de São Paulo (1952), Piracicaba (1953), Salvador (1954) e Rio de Janeiro (1957), cujo objetivo principal era renovar o ensino musical no país, opondo-se aos padrões acadêmicos até então vigentes. Dentre eles, o de maior importância e perenidade foi, sem dúvida, o do Rio de Janeiro, cuja direção artística coube inicialmente a Koellreutter e, em seguida, ao pianista Heitor Alimonda. O prestigioso Seminário de Música do Rio de Janeiro mantém suas atividades até os dias de hoje, tendo deixado, porém, de se vincular à Pró-Arte em 1974, quando passou a ter vida independente.

Em 1997, o acervo da Pró-Arte foi incorporado ao Centro Universitário Serra dos Órgãos (UNIFESO), de Teresópolis, dando origem ao Núcleo Cultural da Fundação Educacional Serra dos Órgãos (FESO/Pró-Arte), voltado à promoção e patrocínio de eventos culturais.

Fontes
- LACOMBE, Marcelo S. Masset. 1924: Uma Exposição de Arte e Arte Decorativa Alemã no Brasil.
  <http://lasa.international.pitt.edu/members/congresspapers/lasa2009/files/LacombeMarcelo.pdf>
- ______. Modernismo e Nacionalismo: o jogo das nacionalidades no intercâmbio entre Brasil e Alemanha. Perspectivas, São Paulo, v.34, p.149-171, jul./dez. 2008.
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbetes: Heuberger, Theodor, p.244; Pró-Arte, p.427).
- SEMINÁRIOS de Música Pró-Arte (site oficial). Sobre a Pró-Arte.
  <http://www.proarte.org.br/Home.htm>

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