Salão Nacional de Arte Moderna – SNAM
André Luiz Faria Couto
Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).

Exposição de artes plásticas promovida anualmente entre 1952 e 1977 no Rio de Janeiro, que abrigava exclusivamente artistas de orientação moderna. O SNAM foi criado a partir do desmembramento da Divisão Moderna do Salão Nacional de Belas Artes, existente desde 1940.


Tomás Santa Rosa cena

Até o final da década de 1930, a Escola Nacional de Belas Artes (ENBA) foi um sólido reduto da arte acadêmica. Até então, a arte produzida na instituição havia se limitado, quando muito, a assimilar timidamente algumas inovações estilísticas de caráter impressionista, que por décadas já haviam deixado de ser novidade na Europa, ao passo que os princípios modernistas, que desde o início do século XX se difundiam pelos principais centros artísticos europeus, permaneciam completamente rejeitados pelos seus professores. Os cobiçados prêmios de viagem ao exterior, concedidos anualmente pela instituição, eram direcionados apenas àqueles alunos que se mostravam infensos a qualquer aproximação com a arte moderna, enquanto o principal evento expositivo da ENBA, o Salão Nacional de Belas Artes, abria suas portas exclusivamente às obras acadêmicas. O apego da Escola ao conservadorismo estético era tal que, muitas vezes, ela acabou por se tornar alvo de críticas que partiam até mesmo de artistas que não se propunham a romper com o academicismo, e que limitavam-se a reivindicar maiores espaços para a livre manifestação. Foi assim que, em 1929, um grupo de artistas e intelectuais liderados por Celso Kelly, insatisfeitos com a recusa de mais de 200 obras pelo júri do Salão oficial, resolveu organizar, fora da Escola, um salão alternativo que ficou conhecido como o Salão dos Recusados.

É verdade que, pouco tempo depois, a hegemonia dos conservadores no interior da ENBA esteve ameaçada quando, em decorrência das mudanças políticas trazidas ao país pela Revolução de 1930, o arquiteto Lúcio Costa assumiu a direção da Escola, iniciando uma frustrada tentativa de renová-la. O ato mais significativo do seu projeto renovador foi o Salão oficial de 1931, também conhecido como Salão Revolucionário, ou Salão dos Tenentes que, ao contrário de todos os seus antecedentes, foi aberto à arte moderna, e acabou mesmo amplamente dominado pelos modernistas. Mas o projeto reformador de Lúcio Costa teria vida efêmera. Pressionado internamente por um grupo de professores conservadores, e sem apoio suficiente para dar continuidade à sua política, viu-se obrigado a demitir-se do cargo em setembro de 1931, quando o Salão Revolucionário ainda estava aberto ao público. No restante da década, em que pese o inegável avanço do ideário modernista nos meios artísticos nacionais, a ENBA permaneceria sob ampla hegemonia da arte acadêmica, ainda que a trajetória da instituição não estivesse livre de novos tensionamentos, como aquele provocado pela presença, em seu interior, do Núcleo Bernardelli, agrupamento constituído por jovens artistas que reivindicavam a reformulação dos ultrapassados métodos de ensino ainda vigentes na Escola, bem como maior liberdade de pesquisa. O Núcleo, porém, também acabaria expelido da ENBA em 1935, quando os seus integrantes foram desalojados da sala que ocupavam no porão da Escola.


M. Grassmann gravura

Foi mesmo somente em 1940, com a criação da Divisão Moderna do Salão Nacional de Belas Artes, que a arte moderna finalmente seria aceita na ENBA, permanecendo a agora chamada Seção Geral do Salão destinada à arte de feitio acadêmico. Já em seu primeiro ano de funcionamento, a Divisão Moderna concedeu ao pintor Alberto da Veiga Guignard o prêmio de viagem ao país. Nos anos seguintes, artistas de orientação moderna, como Pancetti, Milton Dacosta, Iberê Camargo, Clovis Graciano e José Morais foram agraciados com o prêmio de viagem ao exterior.

Mas diante da crescente importância assumida pela arte moderna no Brasil, a Divisão Moderna acabaria extinta para dar lugar, em 1952, ao Salão Nacional de Arte Moderna, mostra que, como já se disse, era destinada exclusivamente aos artistas de tendência renovadora. O antigo Salão Nacional de Belas Artes continuava a existir, agora de novo voltado apenas à arte acadêmica. Ambos os Salões ficavam subordinados à Comissão Nacional de Belas Artes, criada pela mesma lei nº 1.512, de 19 de dezembro de 1951, que estabelecia os referidos salões. Segundo a lei, a Comissão Nacional de Belas Artes seria constituída por dois pintores, dois escultores, dois artistas gráficos (um desenhista e um xilógrafo) e dois críticos de arte, além do diretor do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), cabendo ao ministro da Educação e Saúde fazer a indicação dos artistas e críticos de arte a partir de uma lista tríplice elaborada pelas respectivas associações de classe, sendo sempre um acadêmico e um moderno, cada qual com um mandato previsto de quatro anos. Além de organizar os salões, a Comissão tinha também a incumbência de escolher as obras a serem adquiridas para integrar o acervo do MNBA, escolha essa feita necessariamente entre aqueles trabalhos premiados nos Salões. A primeira gestão da Comissão foi presidida por Rodrigo Melo Franco de Andrade, sendo integrado também por artistas identificados com o modernismo, como Iberê Camargo, Oswaldo Goeldi e Santa Rosa.

Apesar de trazer a público obras inegavelmente identificadas com o ideário modernista, o SNAM apresentava uma estrutura organizacional semelhante à do Salão Nacional de Belas Artes, sendo ambos divididos em seis seções: pintura, escultura, gravura, arquitetura, arte decorativa e desenhos e artes gráficas.Pela lei de dezembro de 1951, ficou estabelecido ainda que o Salão Moderno se realizaria, anualmente, entre os dias 15 de maio e 29 de junho, na sede do Ministério da Educação e Saúde, atual Palácio Capanema (Rio de Janeiro), enquanto o Salão Acadêmico ocorreria entre 15 de setembro e 30 de outubro, no Museu Nacional de Belas Artes, da mesma cidade.


Clovis Graciano Paisagem de Pinheiros 1938

Ao SNAM competia conferir, a cada ano, os seguintes prêmios: duas viagens ao exterior, uma concedida necessariamente a um pintor e a outra dirigida a um escultor, arquiteto, gravador, desenhista ou decorador; viagens ao país distribuídas segundo os mesmos critérios do prêmio anterior; além de prêmios em dinheiro e certificados de isenção de júri. Em sua primeira edição, em 1952, os prêmios de viagem ao exterior foram concedidos ao pintor Inimá de Paula e ao gravurista Marcelo Grassmann.

A terceira edição do Salão, realizada em 1954, ficou conhecida como o Salão Preto e Branco, por apresentar exclusivamente obras em preto e branco, num protesto dos artistas contra a má qualidade das tintas produzidas no país. Na ocasião, foi encaminhado ao Ministério da Educação um manifesto assinado por cerca de 600 artistas de diversas partes do país, liderados por Iberê Camargo, Milton Dacosta e Djanira, que afirmavam o seu “veemente protesto contra a determinação do governo de manter proibitiva a importação de tintas estrangeiras, materiais de gravura e de escultura, papéis e demais acessórios essenciais ao trabalho artístico; proibição esta que consideramos um grave atentado contra a vida profissional do artista e contra os altos interesses do patrimônio artístico nacional”. Nessa terceira edição do certame, os prêmios de viagem ao exterior foram concedidos a Francisco Rebolo e Sansão Castelo Branco, enquanto os de viagem ao país foram dados ao pintor Aldo Bonadei e ao escultor José Pedrosa.

A criação do SNAM coincidiu com o surgimento e consolidação de outros espaços destinados à arte moderna no eixo Rio-São Paulo, como o Museu de Arte de São Paulo (Masp), os Museus de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) e do Rio de Janeiro (MAM-RJ), e a Bienal Internacional de São Paulo, todos estabelecidos entre os últimos anos da década de 1940 e o início da década de 1950.

O último Salão Nacional de Arte Moderna realizou-se em 1977, sendo em seguida substituído pelo Salão Nacional de Artes Plásticas, evento que voltava a unificar acadêmicos e modernos num mesmo Salão, fazendo-o, porém, em função do irreversível esvaziamento da produção artística acadêmica no país e no mundo. A última edição do Salão Nacional de Artes Plásticas ocorreu em 1990.

Fontes
- BRASIL. Lei n° 1.512, de 19 de Dezembro de 1951, que cria a Comissão Nacional de Belas Artes, o Salão Nacional de Arte Moderna, e dá outras providências.
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbetes: Divisão Moderna, p.164; Salão Nacional de Arte Moderna, p.457; Salão Nacional de Artes Plásticas, p. 457; Salão Nacional de Belas Artes, p. 457, Salão Revolucionário, pp.457-458)
- Itaú Cultural - Verbete: Salão Nacional de Arte Moderna.
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=marcos_texto&cd_verbete=3770&lst_palavras=&cd_idioma=28555&cd_item=10>