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SÃO PAULO, ARTE COLONIAL
Arnaldo Marques da Cunha

Professor na Casa das Artes de Laranjeiras, Rio de Janeiro (CAL). Curso de Jornalismo (incompleto), Escola de Comunicação, UFRJ. Revisor técnico e tradutor.


NS do Carmo, Itu, SP

Embora não tenha contado em tempos coloniais com um número alentado de pintores, a despeito do isolamento em que vivia e da pobreza de seus moradores – cuja minguada economia não lhes permitia bancar obras suntuárias, a província de São Paulo também viu desenvolver-se, a partir de meados do século XVIII, sua escola regional de pintura. Iniciada por José Patrício da Silva Manso, essa escola continuou ativa por intermédio de seu aluno Jesuíno do Monte Carmelo e de Miguelzinho Dutra até o século XIX já estar bem avançado.

Desde muito antes desses três nomes, contudo, a arte pictórica já se fizera presente na capitania, primeiramente nos 12 painéis que, em 1629, pendiam das paredes do ricaço Gaspar Barreto; em seguida, em 1655, num retrato equestre de Francisco Nunes de Siqueira feito por João Moura, algo surpreendente para a época e o lugar. Isso sem falar nos “painéis de apóstolos”, nos “painéis grandes, feitio de Nossa Senhora e Menino Jesus” e até nuns enigmáticos “doze painéis de madamas”,  talvez os mesmos que pertenceram a Gaspar Barreto, os quais reapareceram em inventários em 1672, 1681 e 1697.


Monte Carmelo, Virgem, Ig. Carmo, Santos, SP

Outro registro artístico dessa época são as ingênuas pinturas anônimas que, embora deterioradas, ainda hoje avivam o interior do que resta de capelas e igrejas primitivas. Essas pinturas, de inspiração jesuítica, são de duas espécies: a mais antiga é a groteschi, um emaranhado de ornatos combinando figuras humanas ou simbólicas com formas animais, folhagens e espirais; a outra é a de motivos chineses (chinoiseries), em voga na Europa desde começos do século XVIII, porém de adoção mais tardia no mundo português. Existem também “chinesices” em quantidade expressiva na pintura de retábulos e mesmo dos oratórios domésticos paulistas setecentistas ou já oitocentistas, como o retábulo da capela da Fazenda Piraí, em Itu.

Além dos painéis religiosos, dos tais retratos de madamas, da pintura de “grutescos” e da de “chinesices”, outro gênero praticado em São Paulo, em época tardia, foi a pintura perspectivista que, ao ocupar os forros das sacristias e as naves de igrejas, rasgou-os de fora a fora para criar espaços fantásticos, numa pretendida antevisão do céu. Dois artistas se destacaram na prática desse tipo de pintura, ambos ativos em Mogi das Cruzes nos primeiros anos do século XIX e sobre os quais pouco se sabe: Manoel do Sacramento e Antônio dos Santos.

Os  conjuntos escultóricos  mais freqüentes na arte colonial brasileira foram os populares Presépios, montados por ocasião das festas do Natal, e os Passos da Paixão, sempre montados no decorrer da Semana Santa. Uma das melhores esculturas religiosas conservadas em museus brasileiros – a “Madalena”, peça integrante do acervo do Museu de Arte Sacra de São Paulo atribuída a Francisco Xavier de Brito (?-1751) – pertencia, originalmente, a um conjunto escultórico dos tipos citados, hoje desaparecidos. Esta obra possui intensa expressividade e gesticulação dramática, aspectos característicos da função teatral desse tipo de imagem.


Miguelzinho Dutra, paisagem de São Paulo

José Patrício da Silva Manso (falecido em 1801) foi o mais importante pintor de São Paulo em tempos coloniais. Dotado de temperamento violento, sobre sua origem e aprendizado tampouco se sabe ao certo (há quem o julgue natural de Minas). De qualquer modo, existe certo parentesco de estilo entre algumas de suas obras – como a do forro da capela-mor da igreja de Nossa Senhora da Candelária, em Itu,  possivelmente sua obra-prima  – e certas realizações da melhor pintura perspectivista mineira.

Três anos antes de trabalhar nas pinturas da matriz de Itu (1780-1784), José Patrício já tinha realizado decorações na igreja de São Bento, em São Paulo, onde também fez quatro painéis (desaparecidos) sobre a vida do santo. Retornando a São Paulo, passou a trabalhar em 1784 na igreja da Ordem Terceira de São Francisco (o que voltaria a fazer após 1790) e, em 1785, na igreja da Ordem Terceira do Carmo. Sua arte também aparece nos mosteiros beneditinos das cidades de Santos e do Rio de Janeiro. Acabara de pintar “O Patriarca São Bento em Glória” (na igreja de São Bento, em São Paulo) quando foi assassinado em curta passagem por Campinas, provavelmente por um carpinteiro a quem destratara.


Igreja e Mosteiro de São Bento, São Paulo

O santista Jesuíno Francisco de Paula Gusmão (1764-1819) aos 17 anos já seria ajudante de José Patrício na matriz de Itu e adotaria o nome de Jesuíno do Monte Carmelo aos 33 anos (quando ficou repentinamente viúvo e pai de quatro filhos) ao ingressar na Ordem dos Carmelitas. Considerado como a mais curiosa e importante figura da arte colonial paulista, também desenvolveu trabalhos como arquiteto e compositor.

Na produção pictórica de Jesuíno, destacam-se a pintura do forro da capela-mor da igreja da Ordem Terceira do Carmo, em Itu, e a pintura do forro da nave da igreja da Ordem Terceira do Carmo, em São Paulo, datada de 1796. Ali executou 24 figuras de santos e santas carmelitas dispostas em grupos de quatro (cada uma delas em tamanho natural), equilibrando-se precariamente nos bordos do enquadramento.

Jesuíno praticamente deixou de pintar ao se tornar sacerdote, em 1797. A rigor, foi um autodidata servido por uma visão ingênua e sem grandes recursos técnicos – o que se tornou patente na anatomia canhestra de suas figuras e nas suas bisonhas tentativas de perspectivismo, de comovedora simplicidade. É justamente aí, porém, que residem o seu encanto peculiar e a singularidade de sua contribuição à pintura paulista de fins do século XVIII.


NS do Carmo, Mogi das Cruzes, SP

Quanto a Manoel do Sacramento e Antonio dos Santos, a quem são atribuídas pinturas de excepcional qualidade – respectivamente, o teto da nave (1801-1802) e a tarja da capela-mor, com Nossa Senhora tendo ao colo o Menino Jesus (1814-1815) – ambos podem não ter sido paulistas e sim mineiros atraídos pela encomenda recebida para Mogi das Cruzes, já que suas obras parecem bem próximas (pela composição, o desenho e o colorido) da melhor pintura mineira produzida nesta mesma época.

O último pintor a ser citado nasceu e trabalhou já em pleno século XIX e, a rigor, não poderia ser considerado como um artista colonial, embora o seja pelo espírito. Trata-se de Miguel Arcanjo Benício da Assunção Dutra – dito  Miguelzinho Dutra  (1812-1875) – nascido em Itu e falecido em Piracicaba, certamente, o mais notável membro de uma estirpe de pintores ativos em São Paulo desde o século XVIII até os nossos dias, atravessando oito gerações de artistas. Além de pintor, também foi arquiteto, escultor, ourives, músico e escritor.

A partir de 1845, Miguelzinho trabalhou em Piracicaba na construção da igreja de Nossa Senhora da Boa Morte e se destacou, sobretudo, como autor de ingênuas aquarelas nas quais fixou aspectos da cidade e tipos populares. A ele – assim como ao francês Hercule Florence (1804-79), que chegou ao Brasil como desenhista da Expedição Langsdorff em 1825 – deve-se a maior parte da escassa documentação que nos ficou de como se apresentava, pelos meados do século XIX, o interior de São Paulo. 

Fontes:
OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de. História da arte no Brasil: textos de síntese. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2008.
SILVA, Raul Mendes (org.). Sociedade e natureza na história da pintura no Brasil.
Rio de Janeiro: Rumo Certo Produções Culturais, 2007.

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