MISSÕES DE PAZ: A DIPLOMACIA BRASILEIRA NOS CONFLITOS INTERNACIONAIS

Coordenação de Raul Mendes Silva

VISITAS DE DOIS PRESIDENTES.
ARGENTINA E BRASIL SELAM A PAZ NO SUL DO CONTINENTE

DOUTOR ROSENDO FRAGA: ROCA VISITA O BRASIL
Versão em português: Sheila Maria de Oliveira

EMBAIXADOR LUIZ FELIPE DE SEIXAS CORRÊA:
Representante do Brasil junto à Organização Mundial do Comércio
CAMPOS SALLES VISITA A ARGENTINA

ROCA VISITA O BRASIL

     Na Argentina, Julio Argentino Roca assume pela segunda vez a Presidência da República, no dia 12 de outubro de 1898, aos cinqüenta e cinco anos de idade. Aquele jovem General de trinta e sete anos do primeiro mandato é agora um maduro estadista.

     As tensões entre a Argentina e o Chile, que durante o governo de José E. Uriburu (1895-1898) desatam uma corrida armamentista com risco de resultar em conflito bélico, são a razão política de sua eleição para o cargo. Carlos Pellegrini, também pré-candidato à Presidência pelo Partido Autonomista Nacional, decide apoiar a figura de Roca, por considerá-lo o político mais apto a dirigir a Nação naquele momento em que o perigo de uma conflagração com o Chile surgia como risco iminente.

     Roca inicia sua gestão com a idéia central de evitar o conflito, implantando, paralelamente, uma política de modernização e preparação das Forças Armadas para assegurar a paz. Por esse motivo, um de seus primeiros atos de governo é viajar ao Sul, em fins de janeiro de 1899, para encontrar-se com o Presidente chileno, Federico Errázuriz e com ele selar um acordo.

     A paz nas relações com o Brasil era uma constante em Roca. Ainda em sua primeira presidência, assinara, a 28 de setembro de 1885, o acordo pelo qual se estabelecia a maneira de formalizar, com o apoio de uma comissão mista de peritos, o reconhecimento e a classificação dos rios em litígio, na região de Missões. Este acordo seria o ato preliminar do Tratado definitivo de limites, assinado em 1889, que definia a arbitragem a ser  conduzida pelo Presidente Cleveland, dos Estados Unidos, cuja sentença resolveria de uma vez por todas a questão de limites alguns anos depois.

     Inicialmente, Roca trata o assunto de maneira extra-oficial, como era natural para procedimentos diplomáticos, e oficializa sua resposta uma vez de posse da garantia de que seria bem recebido no Brasil. Em maio, o Diplomata do Brasil em Buenos Aires, Henrique de Barros Calvancanti de Lacerda, em ofício confidencial dirigido ao Ministério das Relações Exteriores brasileiro, informa que, a seu ver, a visita que iria realizar Roca relacionava-se " com o plano de uma Liga de três nações, a fim de defender-se de possíveis agressões " e dois dias depois, volta a dirigir-se a seu governo, ressaltando que tanto para Roca, como para o diplomata argentino Enrique Moreno, a visita não apenas seria útil para as relações bilaterais, como também para as restantes nações do Hemisfério Sul.

     Barros Calvancanti estava dando acolhida à idéia que começava a nascer naquele momento no Hemisfério Sul, de que era necessário um acordo entre a Argentina, o Brasil e o Chile, capaz de gerar estabilidade nesta região da América. Segundo Clodoaldo Bueno, para os brasileiros a intenção da viagem de Roca era " estreitar a união entre a Argentina e o Brasil, de molde a que esta circunstância repercutisse no exterior, uma vez que, depois da solução do litígio de Missões, não havia nenhuma questão que nos dividisse ". Acrescenta que " tais foram os argumentos utilizados pelo Governo argentino para manifestar o desejo de receber o convite para a visita presidencial “.

     A 29 de maio, em Petrópolis, o representante argentino junto ao Governo brasileiro, Manuel Gorostiaga, dirige-se ao Ministro das Relações Exteriores Amancio Alcorta, transmitindo-lhe sua preocupação por certa tensão que se percebia na relação do Brasil com os Estados Unidos. Em carta confidencial, afirma que lhe escrevia " para transmitir os temores, já encarnados, que agitam os homens desta República em direção a um potencial conflito com os Estados Unidos da América do Norte ". Segundo informa Gorostiaga ao Governo argentino " há algum tempo, o Senador Ruy Barbosa, homem eminente, vem denunciando em seu jornal, A Imprensa,o perigo que correm as nações americanas, como conseqüência obrigatória da política de expansão ( imperialista ) tão abertamente iniciada e desenvolvida pelos Estados Unidos depois da guerra com a Espanha, para estimular o Governo brasileiro a prover-se de elementos de guerra, especialmente marítimos, de que carece por completo ".

     Após cuidadosas diligências, a decisão definitiva sobre a viagem ao Brasil é adotada no final de junho e comunicada a Manuel Gorostiaga por nota assinada pelo próprio Amancio Alcorta, segundo a qual " ao tomar esta determinação, o Sr. Presidente atendeu às manifestações transmitidas por sua pessoa, em nome do Sr. Presidente Campos Salles, assim  como ( manifestou ) sua mais firme convicção de que tal ato há de servir, sem dúvida alguma, para estreitar as cordiais relações políticas e comerciais existentes, em benefício de ambos os países ".

     Alcorta termina sua comunicação dizendo o seguinte: “ O Senhor se servirá levar ao conhecimento desse Governo a resolução do Sr. Presidente, esperando que em uma próxima oportunidade este ato seja retribuído pelo Sr. Presidente dessa República              ( Brasil ) ; e no que se refere ao cerimonial que deverá ser observado, buscará informar-se com a Chancelaria ( brasileira ), enviando resposta imediata a este Ministério ".

     No dia 18 de julho, em telegrama dirigido a Gorostiaga, Alcorta informa-o de quantas pessoas integrarão a comitiva oficial e pede-lhe que a legação argentina ( no Rio de Janeiro ) se encarregue de encontrar alojamento. No dia seguinte, pelo mesmo canal, antecipa que a data provável de partida de Roca está marcada para 31 de julho.

     Roca embarca para o Rio de Janeiro às quatro da tarde da quinta-feira, 3 de agosto. Viaja com sua comitiva a bordo do San Martín - o navio mais moderno da esquadra argentina -comandado diretamente pelo Ministro da Marinha, Comodoro Martín Rivadavia, que uma década antes comandara a corveta Argentina, primeiro navio estrangeiro a reconhecer a República brasileira em 1889.

     A viagem tem como justificativa formal congratular o Doutor Manuel F. de Campos Salles por seu recente triunfo eleitoral, eleito Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil, a 1º de maio de 1898. Em realidade, visava tanto estreitar relações com o Brasil, com quem a Argentina já havia solucionado todos os conflitos de limites, como a emitir um sinal ao Chile, com quem ainda tinha pendentes conflitos limítrofes.

     Félix Luna, em Soy Roca, faz com que o próprio Roca relate o início da viagem ao Brasil, assim como suas intenções: “ O próximo passo deste sutil jogo diplomático consistia em ir ao Brasil. Embora lá nada concretizássemos, os chilenos suporiam ter ficado estabelecido algum entendimento com o Governo Campos Salles, e essa suspeita contribuiria para moderar seus impulsos bélicos. Quanto mais negássemos haver sido negociada alguma forma de aliança, menos o creriam nossos vizinhos transcordilheiranos. Por outro lado, era aconselhável estreitar vínculos com os brasileiros, com quem havíamos tido atritos pelas seqüelas da Guerra do Paraguai e por problemas fronteiriços. Desde que o Brasil se tornara uma República, as afinidades entre argentinos e brasileiros, cresceram. Era uma boa oportunidade para evidenciar este fato ".

     Félix Luna relata assim a viagem de Roca: “A 6 de agosto, embarcamos no encouraçado San Martín. Eu conhecia o Rio de Janeiro por minhas breves escalas da viagem à Europa, mas desta vez visitei aquela cidade durante uma semana, estive em Petrópolis e passeei por suas avenidas, sempre que pude escapar às obrigações cerimoniais que me foram impostas. Fiquei maravilhado com a opulência de sua natureza e admirado pelo respeito com que esta era preservada, com a beleza de suas perspectivas e o estilo imperial de seus edifícios públicos. Houve recepções, bailes - eu mesmo tive de dançar uma quadrilha - banquetes, passeios, e até mesmo uma " festa veneziana " na última noite, com fogos de artifício sobre a baía...tudo teve a aparatosa solenidade e própria de uma corte imperial, atenuada pela cordial solicitude de nossos anfitriões ".

     O correspondente de Caras e Caretas que viaja com a comitiva, assim relata a entrada no Rio de Janeiro: " Saiu a encontrar-nos mar afora uma divisão brasileira sob o comando de Bento Gonçalves e, escoltados por ela, entramos na porto ao meio-dia, nesta ordem: San Martin, Buenos Aires, Patria, Aquidaban, Barroso e Tupy. Esperava no encouraçado Riachuelo Campos Salles, e a seu encontro foi Roca, com pomposo uniforme. Saudaram-se. A Baía era a essa hora um prodígio, uma maravilha, uma coisa inaudita e inesquecível. Da galeota  Dom João VI, de arcaica beleza, desceram os Presidentes, entre salvas provindas de barcos e fortalezas, aclamações que se elevavam rumorosas, de milhares de bocas, vibrando com surpreendente pureza no ar transparente, e voltavam repetidamente, ecoadas pelas montanhas como trovões longínquos ".

     Na noite de 9 de agosto, Roca discursa para agradecer o banquete com que é homenageado. Em sua fala sintetiza seu pensamento: " Militei muito jovem nas forças aliadas que lutavam por uma causa comum, e este vínculo de sangue e sacrifício não se rompe facilmente na vida. Levado mais tarde ao governo, esforcei-me em desenvolver entre os países uma ação pacífica e proveitosa. Coube-me então firmar o tratado preliminar para levar a termo nossa velha contenda colonial. Voltei ao poder a tempo de presidir as últimas sugestões da demarcação. Cumpre-me dizer aqui com franqueza que aceitamos quase com satisfação a decisão do árbitro, porque assim conquistamos o que vale mais do que um pedaço de território, a simpatia amizade do povo brasileiro ".

     Um ato central da recepção oferecida a Roca é o desfile militar que se realiza no dia 11 de agosto. Participam desta grande parada 9.000 homens das três Armas. As tropas passam ao comando do General Cantuária, em cujo Estado Maior desfila o Tenente Shipton, Adido Militar da Embaixada dos EUA. no Rio, um detalhe de menor importância, mas que em alguma medida revelava a relação que existia nesse momento entre Brasil e Washington.

     Nessa mesma noite, o Ministro de Guerra do Brasil oferece um banquete à comitiva argentina e na oportunidade, o Ministro argentino, General Luís María Campos - assim como Roca, combatente nos exércitos da Tríplice Aliança - em seu brinde deixa transparecer a idéia de uma aliança formada pelas nações sul-americanas.

     As festividades contam, além disso, com uma sessão no Hipódromo, onde acontece o “Grande Prêmio República Argentina " ; um almoço oferecido pelo Presidente brasileiro a bordo do encouraçado brasileiro Riachuelo - nome atribuído ao barco em homenagem ao triunfo naval da Esquadra brasileira sobre a paraguaia na Guerra da Tríplice Aliança; a inauguração de uma estátua do Duque de Caxias e uma festa " veneziana " a bordo dos barcos dos dois países ancorados no porto.

     O Senado recebe, por sua vez, uma delegação parlamentar argentina, integrada pelos Senadores Virasoro, Anadón e Maciá e pelo Deputado Balestra. Presta a homenagem o Senador brasileiro Quintino Bocayuva, que se expressa da seguinte maneira: " Ao ilustre Presidente do Senado argentino: recebendo a honrosa visita dos dignos membros do Congresso argentino, o Senado  da República do Estados Unidos do Brasil expressa ao Senado da República Argentina sua satisfação em nome dos Estados da União brasileira e saúda respeitosamente a Nação Argentina fazendo os mais sinceros votos por sua prosperidade e grandeza ".

     A extensão da visita, que era de dez dias, também gera algumas críticas na Argentina. Um jornal portenho dizia, no dia 13 de agosto que " um dos erros que indubitavelmente foram cometidos nos detalhes da visita do General Roca à capital do Brasil, é a excessiva duração que foi fixada para a permanência de nossa comitiva naquela cidade. Queira-se ou não, enquanto durar a presença do Presidente argentino, fica suspendida toda vida oficial e se leva a cabo uma série ininterrupta de festas ".

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     O regresso da comitiva argentina se realiza a 18 de agosto. No dia anterior, tem lugar a última recepção de agradecimento oferecida pelo Presidente argentino a bordo do encouraçado San Martín. Roca doa sua espada - que é destinada ao Museu do Rio - e expressa em seu brinde final que a recepção prestada pelos brasileiros " é manifestação de uma verdadeira aliança moral, assentada em sentimentos que estão na consciência de uma e de outra nação ". Mais cautelosamente, seu colega brasileiro responde que " nunca será esquecida a simpatia e o respeito que o Governo Federal deve à sua pessoa ".

     O historiador argentino Gustavo Ferrari avalia da seguinte maneira a viagem de Roca ao Brasil: “A recepção oficial foi imponente, apesar de haver sido observada certa frieza popular, que testemunhas dos atos  atribuíram a algumas atitudes argentinas, mas sobretudo aos receios brasileiros face à possibilidade de um pacto que ligasse seu país à Argentina, deixando-o de mãos atadas ".

     Também se registra certa preocupação na Chancelaria brasileira, pela repercussão sobre a aliança Brasil-Argentina, como contraposição à influência norte-americana. Tanto é assim que, a 24 de agosto, seis dias depois da partida de Roca, o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Olynto de Magalhães, instrui a legação em Washington para que fossem eliminadas eventuais desconfianças de que a Argentina e o Brasil, ou outros países da .América do Sul, pudessem integrar uma suposta aliança com a finalidade de     " se defenderem dos Estados Unidos ".

     Os acordos concretos que se firmam são poucos. Mas o gesto político é importante e, sem sombra de dúvidas, representou um significativo acontecimento histórico na relação bilateral entre os dois países.

     No ano seguinte, Campos Salles retribui a vista viajando a Buenos Aires, dando assim continuidade à visita de Roca e fechando o círculo de um ato que mostra, acima de tudo, a vontade política que existia no último ano do século XIX para o fortalecimento das boas relações entre os dois países.
     O intercâmbio de visitas, deve ser interpretado em um contexto mais amplo que, na ótica do historiador argentino Gustavo Ferrari, se explica pelo fato de que " ao se iniciar o século XX, três países sul-americanos exibiam traços distintivos com relação à massa confusa dos demais: a Argentina, o Brasil e o Chile. Os dois últimos haviam proporcionado um raro exemplo de estabilidade política e de prosperidade durante a segunda metade do século anterior e, mais recentemente, haviam superado os traumas que os haviam inquietado com a queda do Império ( 1889 ). Por sua vez, a Argentina, distanciada já da crise dos 90, apresentava-se como paradigma da teoria do progresso linear e indefinido ” .

     Roca termina sua segunda presidência em outubro de 1904, tendo conseguido consolidar a distensão no Cone Sul e levando as relações com o Brasil a um grau de concórdia e cooperação sem precedentes nas décadas anteriores. Evita, conseqüentemente, o conflito bélico com o Chile, encaminhando sua solução por via diplomática e assentando as bases da importância do triângulo ABC, como eixo da projeção internacional do Cone Sul da América.

     Durante a década seguinte, até sua morte em 1914, a influência de Roca irá declinando gradualmente, mas a política de boas relações entre a Argentina e o Brasil continuará sendo uma constante em sua atividade pública.

     Roca era tido no Brasil como o símbolo das boas relações com a Argentina. Já haviam transcorrido oito anos da visita oficial ao Rio, mas o ex-Presidente argentino continuava sendo visto pela classe política brasileira como a figura que representava o entendimento com nosso país ( Argentina ).

     No ano seguinte, o novo Presidente argentino, Roque Sáenz Peña, decide convocar seu velho adversário político, o General Roca, para pedir-lhe um último serviço ao país: representá-lo como Ministro Plenipotenciário e Enviado Extraordinário junto ao Brasil.  Na visão de Félix Luna, Roca recebe assim o oferecimento: " Em meados de maio de 1912, estava em minha casa conversando com alguns amigos sobre o naufrágio do Titanic, quando me perguntaram por telefone se eu não teria inconveniente em receber o Ministro das Relações Exteriores. Bosch transmitia-me o pedido do Presidente para que eu viajasse ao Brasil como Ministro Plenipotenciário e Enviado Extraordinário, a fim de superar definitivamente os atritos ocorridos na época de Zeballos. Explicou-me que Ramón Cárcano, como representante pessoal de Sáenz Peña, havia chegado meses antes a um acordo na compra de novos encouraçados por parte dos dois países. Tanto o Brasil como a Argentina. comprometeram-se a não adquirir novas unidades navais. Para sacramentar este aceno, o governo brasileiro havia mandado o ex-Presidente Campos Salles meu velho amigo, como Ministro a Buenos Aires durante algum tempo, e esperava-se no Rio de Janeiro que nosso governo fizesse o mesmo com uma personalidade de igual hierarquia. Eu já havia estado inúmeras vezes com Campos Salles, acompanhando-o em sua estada aqui, e até havíamos visitado juntos a estância "San Juan”, de Simón Pereyra... De acordo com suas insinuações, afirmava maliciosamente que o Presidente me ofereceria esta missão, que consistia em nada negociar, mas sim em deixar transparecer de maneira ostensiva, que as relações entre os dois países haviam voltado a ser excelentes, como ocorrera durante minha Administração. Por outro lado, não me era solicitado que permanecesse ali mais de dois ou três meses ".

     A respeito da função diplomática em si mesma, o livro Soy Roca dirá: “ Nem tudo foram festas. Também houve jornadas de trabalho. No Consulado argentino, conversamos com funcionários brasileiros para conseguir a redução das tarifas de importação de erva-mate, café e tabaco do Brasil, em troca de que eles baixassem as que dificultavam a entrada de nossas carnes e farinhas. Como o assunto dos armamentos estava superado, não se falou desse tema, mas várias vezes conversamos, eu e o Ministro Mauro Müller, um filho de alemães, sucessor de Rio Branco - que havia falecido neste ano - sobre a solução a que se havia chegado, que liberava as duas nações de uma pesada carga em matéria de gastos militares. Em meados de setembro, minha missão estava terminada. Começou uma nova rodada de banquetes e bailes de despedida e, finalmente, a 24 desse mesmo mês, embarcamos no Cap Arcona ” .

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     Duas personalidades chave do Brasil em relação à Argentina haviam morrido em 1912: Quintino Bocayuva e José Maria da Silva Paranhos, o Barão do Rio Branco. Roca faleceria dois anos depois, a 14 de outubro de 1914. Sua ação em prol da paz e da harmonia na região havia sido uma idéia central em sua política, até o final de seus dias, como pudemos atestar. A respeito da situação que ficou cristalizada naquele momento na região, o historiador Gustavo Ferrari opina que " desaparecidos os fatores de perturbação e apaziguados os ânimos, a Argentina, o Brasil e o Chile retomaram as linhas de uma política conjunta que logo ofereceria seus frutos mais notórios: a mediação no conflito entre o México e os Estados Unidos e o tratado pacifista chamado, precisamente, de Tratado do ABC .

     A 25 de maio de 1915, em Buenos Aires, os Chanceleres do Brasil, Chile e Argentina, somando-se depois o do Uruguai, assinam o tratado de resolução pacífica de conflitos, conhecido como ABC. Roca havia falecido oito meses antes... Não chegou a viver para ver algo que coroava sua política exterior dos trinta e cinco anos precedentes.

     A relação com os oficiais brasileiros na Guerra da Tríplice Aliança nos anos da juventude, o Tratado de 1885 na primeira Presidência de Roca para buscar uma solução diplomática para o conflito de Missões, a visita que realiza ao Rio de Janeiro em 1899, retribuída pelo Presidente Campos Salles no ano seguinte, a visita ao Brasil em 1907, em momentos de especial tensão  entre os dois países e a derradeira missão diplomática ante o país irmão dois anos antes de sua morre, em 1912, mostram uma continuidade de meio século no protagonismo de Roca nas relações entre a Argentina e o Brasil.

     Frente a Roca, três figuras no Brasil simbolizam, nesse período, a política de boas relações e harmonia com a Argentina: Manuel Ferraz de Campos Salles, Quintino Bocayuva e o Barão do Rio Branco. Da presidência e da diplomacia, o primeiro; da política, das letras e da diplomacia, o segundo; e do Itamaraty, o último, foram as contrapartes de Roca durante os últimos anos do século XIX e os primeiros do século XX, para ajustar as políticas e as ações que evitaram os conflitos e permitiram a paz.

     É neste contexto que a visita de Roca ao Rio de Janeiro; além de constituir a primeira visita oficial de um Presidente argentino ao Brasil e de ter o significado de um acontecimento histórico relevante nas relações bilaterais, inscreve-se em uma política de cooperação entre os dois países, cabalmente representada por Roca na Argentina.

     Recordar esta visita, suas circunstâncias, significado e conseqüências, mais de um século depois, serve para compreender que a excepcional relação que hoje existe entre a Argentina e o Brasil não é somente corolário das necessidades de integração que derivam da globalização, mas também da gradual evolução de uma sólida relação de entendimento entre os dois povos.

     Hoje os encontros presidenciais são algo freqüentes e uma prática normal nas relações exteriores entre os estados. Os Presidentes do Brasil e da Argentina encontram-se várias vezes no decorrer de um ano e a tecnologia das comunicações permite, de forma imediata e instantânea, o diálogo, sempre que este se faz necessário. Mas o espírito do primeiro encontro entre os mandatários do Brasil e da Argentina sobrevive hoje, mais de cem anos depois, e é fonte de inspiração para uma relação bilateral que sem dúvida tende a concretizar os sonhos e as aspirações daqueles estadistas que nos governaram no fim do século XIX e princípio do XX. Eles delinearam este presente e a eles devemos a excepcional relação argentino-brasileira nos começos do século XXI.

CAMPOS SALLES VISITA A ARGENTINA

     Manuel Ferraz de Campos Salles governou o Brasil de 1898 a 1902. Foi o quarto Presidente do Brasil e o segundo civil a chefiar o Executivo após a Proclamação da República em 15 de novembro de 1889. Era natural do Estado de São Paulo, nascido em Campinas em 13 de fevereiro de 1841. Iniciou sua vida de militância política aos 23 anos, como colaborador do jornal ultra-liberal A Razão. Aos 28, ainda estudante de Direito, elegeu-se Deputado pelo Partido Liberal à Assembléia Provincial de São Paulo. Constantes críticas à Coroa e um veemente republicanismo provocaram sua expulsão do Partido. Junto com outros ultra-liberais, fundou um núcleo republicano em São Paulo, em torno do qual passou a orientar sua ação política.

     Campos Salles teve ativa participação na campanha iniciada com a publicação do Manifesto Republicano de 3 de dezembro de 1870. A monarquia brasileira, abalada pelo prolongado esforço da Guerra do Paraguai, começava então a lenta decadência que conduziria à sua extinção dezenove anos depois. Ao tempo da Proclamação da República, Campos Salles era Presidente da Comissão Permanente do Partido Republicano. Figurava entre os principais políticos e intelectuais que davam sustentação ideológica aos militares responsáveis pela transformação institucional do Brasil.

     Ocupou a pasta da Justiça no Governo provisório do Marechal Deodoro da Fonseca. Em 1891, promulgada a Constituição republicana, elegeu-se Senador. Atravessou incólume o torvelinho político e militar que assinalou os primeiros tempos republicanos. Impôs-se, nas suas próprias palavras, " uma conduta sistematicamente tolerante, moderada e prudente em face dos atos do Governo, porque receava que dos choques entre os poderes públicos pudesse surgir a anarquia ".

     Candidato à Presidência pelo Partido Republicano Histórico, foi eleito, em março de 1898, para suceder outro paulista, Prudente de Moraes. Viu-se imediatamente a braços com a gravíssima crise financeira por que atravessava o Brasil. O tesouro estava exaurido e a inflação ameaçava os fundamentos da frágil economia brasileira. O poder político fragmentava-se em meio às transformações ocorridas nas relações entre o centro e a periferia do país. As seqüelas do fim do regime servil ainda se faziam sentir no campo; e, nas cidades, a produção desorganizava-se diante da especulação financeira. O Brasil havia chegado à beira da insolvência. O acesso aos mercados internacionais de crédito achava-se severamente restringido. Impunha-se uma composição com os credores.

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     Uma vez eleito, Campos Salles viajou à Europa. O Embaixador em Paris, Gabriel de Piza, instara-lhe a apresentar pessoalmente aos credores o seu plano financeiro e, assim, obter a " restauração do nosso crédito abalado ". Após árduas negociações em Paris e em Londres, concluiu um instrumento de consolidação da dívida com a Casa Rothschild, conhecido como funding-loan. Mediante este instrumento assinado em junho de 1898, o Brasil, para assegurar o pagamento de suas dívidas, obrigou-se a aumentar as tarifas externas e a taxar em proporção equivalente a produção interna. O funding-loan foi garantido pela hipoteca das rendas da Alfândega do Rio de Janeiro. A partir de janeiro de 1899, o Governo Federal passou a ter de depositar em papel-moeda, em bancos ingleses e alemães no Rio de Janeiro, o correspondente às emissões externas.

     Campos Salles cumpriu religiosamente os compromissos assumidos com os credores. Governou com rigorosa austeridade. Os efeitos da política recessiva não se fizeram esperar. Incontável número de falências paralisou a indústria e o comércio. Diversos bancos quebraram, inclusive o Banco do Estado, controlado pelo Governo Federal. Suspenderam-se todas as obras públicas. Com vistas à valorização da moeda, incinerou-se meio circulante equivalente aos saldos deixados pela tributação.

     Necessitando preservar a governabilidade diante do quadro de insatisfação social que se seguiu à implementação da política de austeridade, mas decidido a não recorrer à coerção militar, Campos Salles acabou estabelecendo um novo estilo de exercício do Poder. Propiciou um sólido controle do país pelas oligarquias sucessoras da ordem monárquica. Foi ele o responsável pela implantação dos modelos de organização política e institucional que caracterizaram o período hoje denominado como a República Velha, que durou até à Revolução de 1930. Seu governo baseava-se num fluxo interativo de apoio recíproco entre o centro e a periferia do Poder: o Rio de Janeiro fechava os olhos às artimanhas empregadas pelos Governadores para eleger as suas dóceis bancadas de Deputados e Senadores e as lideranças estaduais, por sua vez, retribuíam, assegurando o apoio legislativo necessário para as draconianas medidas tomadas pelo Governo para debelar a crise financeira. Na História do Brasil, este modelo de exercício do Poder ficou conhecido como A Política dos Governadores.

     Como todos os republicanos federalistas, Campos Salles esperava tudo dos Estados; a política, na sua visão, deveria vir da periferia para o centro e não do centro para a periferia. Em mensagem ao Congresso, sintetizou claramente a sua visão do sistema político, com palavras que elucidam algumas características fundamentais ainda vigentes do embasamento institucional do processo decisório brasileiro: " Neste regime, é minha convicção inabalável, que a verdadeira força política, que no apertado unitarismo do Império residia no poder central, deslocou-se para os Estados. A política dos Estados, isto é, a política que fortifica os vínculos de harmonia entre os Estados e a União é, pois, na sua essência,  a política nacional.  É lá, na soma dessas unidades autônomas, que se encontra a verdadeira soberania da opinião. O que pensam os Estados pensa a União ".

     Os tempos revelavam-se amargos e tempestuosos no Brasil. Os problemas sociais se agravavam com as medidas recessivas. O Governo era alvo das mais violentas recriminações. Amparado num sólido controle do Legislativo, graças às bancadas feitas pelos Governadores que lhe eram fieis, Campos Salles foi capaz de assegurar a rigidez da política financeira de seu Ministro da Fazenda, Joaquim Murtinho, contra toda a oposição popular.

     Praticou um presidencialismo forte. Entendia o sistema presidencialista como capaz de propiciar um controle pessoal e constante do exercício do Poder pelo Chefe de Estado e de Governo. Homem austero e disciplinado, abrigava uma concepção vertical da instituição presidencial. Era contrário a despachos coletivos. Atuava em última instância, delegando autoridade a seus Ministros, com os quais se entendia individualmente. Explica em suas memórias: “ Quem formula o programa e confere à administração a sua índole característica é o Presidente. É por isso que se me afigurou .absurda a deliberação em Conselho de Ministros ”.

     Nem tudo, porém, ficou paralisado em sua Administração. Abriu algumas frentes de modernização do país; construíram-se trechos de estradas de ferro e ampliaram-se as redes telegráficas. E não descuidou de satisfazer os militares: aprimorou as condições operacionais do Exército; concluiu as obras das fortalezas da Baía do Rio de Janeiro; recuperou as defesas do porto de Santos; comprou dois novos encouraçados para a Marinha.

     Sensível à realidade que encontrara na Europa como Presidente-eleito, Campos Salles percebeu a importância do contexto internacional para a estabilidade do Brasil e buscou operar as mudanças necessárias à inserção do país no mundo que se transformava. Equacionados os problemas com os credores europeus, dedicou-se a cultivar a relação com os EUA, que já se preparavam para exercer no Brasil, como em toda a América Latina, a preeminência que teriam ao longo do Século XX. Uma preeminência que, no caso do Brasil, se alicerçava em situações muito concretas: ao final do Século XIX, os EUA já se haviam transformado nos maiores compradores dos três principais produtos de exportação do Brasil: café, borracha e cacau. O laudo favorável ao Brasil dado pelo Presidente Grover Cleveland na questão de limites com a Argentina em 1895 e o apoio do Brasil aos Estados Unidos, em 1898, por ocasião da Guerra de Cuba, materializado, inclusive, na cessão de dois navios de guerra, prenunciavam a aliança que se forjaria mais explicitamente a partir de 1902 à luz das políticas do Barão do Rio Branco.

     A política externa praticada pela República havia desde logo tratado de diferenciar-se da que havia sido conduzida pela Monarquia. Falava-se na época em republicanizar a política externa, expressiva afirmação que antecipava uma tendência a atenuar os vínculos tradicionais do Brasil com o sistema europeu e a privilegiar o espaço pan-americano. O Manifesto Republicano de 1870 havia sido expresso: “ Somos da América e queremos ser americanos. A monarquia é, na sua essência e na sua prática, hostil ao direito e aos interesses dos Estados americanos. A permanência da ( monarquia ) é fonte perpétua de hostilidade e de guerras com os povos que nos rodeiam ".

     A instabilidade política interna prevalecente até Campos Salles havia impedido, porém, que se produzissem mudanças nítidas e consistentes de orientação. Entre a Proclamação da República e o fim do período Campos Salles, ou seja, nos 13 anos que antecederam a gestão de Rio Branco, onze Ministros se sucederam à frente do Ministério das Relações Exteriores, sem incluir alguns períodos de interinidade.

     Apesar desse elemento de instabilidade e das descontinuidades ocasionadas pelas alternâncias à frente da Chancelaria, observou-se desde o advento da República nítida tendência a privilegiar a relação com a Argentina. Como a assinalar dramaticamente essa orientação, o primeiro Ministro das Relações Exteriores republicano, Quintino Bocayuva, tomou a iniciativa de viajar a Buenos Aires e negociar com o Governo argentino uma solução salomônica para os territórios limítrofes em litígio na região de Palmas ( Missões ) questão que, de comum acordo, havia sido submetida, em 1888, ao arbitramento do Presidente dos Estados Unidos da América. O Tratado assinado em Montevidéu em 25 de janeiro de 1890, que dividiu pela metade o território em litígio, seria posteriormente rechaçado pelo Poder Legislativo, a pedido do próprio Quintino, e a questão acabaria resolvida favoravelmente ao Brasil graças à advocacia do Barão do Rio Branco junto ao árbitro norte-americano. Mas o gesto impetuoso e significativo das lideranças republicanas não deixaria de assinalar uma clara mudança na dinâmica com que se buscaria transformar a relação com a Argentina num fator de equilíbrio e cooperação na região da Prata, que tanta instabilidade e tantos conflitos havia ocasionado durante o período colonial e todo o período monárquico.

     Os contrastes entre o Brasil e a Argentina eram então muito evidentes. Ao final do século XIX, enquanto o Brasil lidava com desequilíbrios, carências e uma crônica insuficiência de recursos, a Argentina transformava-se aceleradamente em sentido positivo sob a chamada ordem conservadora, vindo a distinguir-se como o país mais adiantado material e culturalmente da América Latina. Roca, que assumira a presidência pela segunda vez em 12 de outubro de 1898, um mês antes de Campos Salles, compreendia perfeitamente a importância de assegurar um entorno pacífico para a prosperidade e a estabilidade da Argentina. Daí sua preocupação em promover relações equilibradas e de signo cooperativo com os dois Estados que, flanqueando a Argentina, poderiam afetar a sua segurança: o Chile e o Brasil. Interessava-lhe, sobretudo, evitar uma carreira armamentista capaz de desviar para as forças militares os recursos necessários à consolidação do desenvolvimento da Argentina. Os problemas limítrofes com o Brasil haviam sido resolvidos, não existindo, por conseguinte, conflitos reais. Mas com o Chile subsistia um passivo importante de conflitos territoriais. As tensões entre os dois países achavam-se em ponto crítico, acentuando-se os preparativos para hipóteses bélicas e as demandas por armamentos. Boas relações com o Brasil certamente contribuiriam para encaminhar mais equilibradamente o contencioso com o Chile.

     No plano bilateral, o conjunto de visitas presidenciais Roca - Campos Salles representaria, acima de tudo, uma ante-visão do processo de integração, que só muitas décadas mais tarde viria a se instalar na relação. É extremamente signifìcativa nesse sentido a afirmação que fez o Presidente Roca perante um grupo de legisladores brasileiros encabeçados por Quintino Bocayuva, logo no segundo dia de sua estada no  Rio de Janeiro: " Brasil e a Argentina devem unir-se com laços da mais íntima amizade, porque juntos serão ricos, fortes, poderosos e livres ”. Hoje esta afirmação pode parecer trivial. Em 1898, no entanto, soava extremamente ousada a idéia de que os países poderiam promover conjuntamente a sua riqueza, a sua liberdade e a sua segurança. O conceito de integração não existia. Os países se relacionavam em termos de paz ou de guerra, de gestos amistosos ou inamistosos. Não se havia ainda imaginado a possibilidade de integrar capacidades produtivas. Poucas formulações terão sido mais  capazes de sintetizar com tamanha precisão e antecedência o rumo que tomariam as relações bilaterais muitas décadas adiante, já quase ao final do século XX.

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      Ao chegar a Buenos Aires, em 24 de outubro de 1900, retribuindo a visita que lhe fizera um ano antes o Presidente Roca, Campos Salles já podia sentir-se seguro quanto à solidez do seu dispositivo político de sustentação e quanto às perspectivas de normalização econômico-financeira do país. Havendo realizado a primeira visita de um Presidente-eleito do Brasil ao Exterior, Campos Salles tornou-se também, ao chegar à Argentina, o primeiro Chefe de Estado brasileiro a visitar oficialmente um país estrangeiro, já que as viagens de D. Pedro II aos EUA e à Europa não se haviam revestido de caráter de visitas de Estado.

     Não terá sido o Presidente do Brasil insensível às diferenças àquela altura existentes entre Buenos Aires e o Rio de Janeiro. A Argentina de Roca vivia o auge de um desenvolvimento sem precedentes na América do Sul. A modernização, começada na década dos 1870, rendia os frutos esperados. A Argentina havia-se tornado um dos principais produtores e exportadores de cereais do mundo; estradas de ferro uniam o porto às regiões produtoras; a pecuária se estendia pelas fronteiras ampliadas em direção ao Sul. Buenos Aires, com seus oitocentos mil habitantes, já se orgulhava de ser a maior cidade da América Latina. Atraía largas quantidades de imigrantes europeus. Modernizava-se seguindo traçados de inspiração parisiense. Vastas avenidas rompiam a estreiteza dos moldes originais da cidade. A aristocracia erguia seus palácios em direção ao norte, construções que ainda hoje atestam a visão grandiosa de uma geração de argentinos que pretendia replicar, no extremo da América do Sul, a civilização européia.

     Grandes lojas internacionais haviam-se instalado em Buenos Aires. O ambiente cultural refletia a prosperidade do país e um volume de riqueza que parecia ilimitada. Em contraste, o Rio de Janeiro guardava as aparências do seu passado colonial. Mal começava a crescer e a incorporar os avanços da urbanística. A cidade ainda se amontoava em ruelas circundantes do centro tradicional. Asepidemias grassavam. Predominava um certo espírito provinciano. Pouco se avançava em matéria de instrução pública. A vida cultural desenvolvia-se num pequeno oásis em torno da Academia de Letras e de um grupo de intelectuais classicistas ou afrancesados, inspirados pelo positivismo comtiano, tão ao gosto dos militares republicanos. As exceções eram poucas e notáveis. Machado de Assis envelhecia num novo mundo carioca que não chegava a compreender plenamente, mas que aceitava com o ceticismo e o humour de sua fulgurante inteligência criadora. Joaquim Nabuco recuperava, com o seu monumental Um Estadista do Império, aparecido em 1897, as glórias e as visões de Estado dos grandes nomes da monarquia brasileira, contrastando-os tacitamente com a pequeneza da política dos primeiros anos da República.

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     O Governo argentino esmerou-se em propiciar aos visitantes brasileiros uma recepção. primorosa. O Ministro do Interior, Doutor Felipe Yofre e o Prefeito de Buenos Aires, Don Adolfo Bullrich, encarregaram-se de coordenar todos os aspectos do programa. Ambos cumpriram com sua missão à risca, a ponto de os correspondentes estrangeiros em Buenos Aires comentarem que as festividades não haviam deixado nada a dever às que haviam assinalado anos antes a visita do Czar Alexandre a Paris.

     O desembarque da comitiva brasileira, previsto para o dia 24, teve de ser postergado para o dia seguinte, por causa de um imprevisto temporal que se abateu sobre Buenos Aires. Quando finalmente entrou no porto, a bordo do encouraçado Riachuelo, Campos Salles deparou-se com uma recepção apoteótica. Para que a população portenha pudesse participar dos festejos, os dias 24 e 25 haviam sido declarados feriados nacionais.

     O Presidente Campos Salles, juntamente com os Ministros que o acompanhavam, hospedou-se no Palácio recém construído pelo Senhor Tomás Devoto na esquina de Callao com Charcas, em frente à Praça Rodrigues Peña. Os demais membros da comitiva brasileira foram alojados no também recém-construído Palácio Dorrego, na esquina das avenidas de Mayo e de Peru. Registra a crônica que nada faltou ao conforto e à atenção dos visitantes, havendo-se, inclusive, instalado no Palácio Devoto uma central telefônica e uma agência de correios e telégrafos.

     O primeiro evento oficial após a chegada consistiu no banquete oferecido pelo Presidente Roca no Palácio de Governo, seguido de baile nas instalações do Jockey Club. No brinde com que saudou o mandatário brasileiro, o Presidente Roca assinalou o ineditismo da visita: “ Estes atos não pertencem às formas consagradas da diplomacia americana; mas, embora novos, tiveram o assentimento caloroso e unânime de nossos dois países, penetrados da influência considerável que hão de exercer em seus mútuos interesses e nas relações dos Estados que formam a nossa família continental ”.

     Campos Salles retribuiu; “ Comuns foram (no passado) as nossas glórias e sacrifícios; iguais foram os nossos esforços em prol da grandeza e da prosperidade de nossos países; comuns serão também nossos esforços em benefício da paz e da civilização”.

     Após várias solenidades e homenagens mútuas das autoridades de cada país, o dia 28, domingo, foi dedicado a uma visita ao stand de tiro e às corridas vespertinas no Hipódromo de Palermo. À noite, realizou-se monumental banquete oferecido ao Presidente Campos Salles no recinto do Teatro da Ópera pela Comissão de Comércio da Argentina. O Presidente da entidade, Vicente L. Casares, expressou o sentimento das lideranças empresariais argentinas:“ Os grêmios conservadores da sociabilidade de ambos os Estados, os que fecundam a produção e a riqueza nacional, tudo esperam do trabalho pacifico e da harmonia de interesses de ambos povos. ”

     Campos Salles respondeu no mesmo tom, conciliando ao equilíbrio das relações: “ Sois os representantes do trabalho, da atividade industrial, da fecundidade econômica, ou seja, dos órgãos genuínos dos interesses conservadores da nação. (...) 

     Na Câmara, a delegação brasileira foi saudada pelo Deputado Balestra, da Província de Corrientes. Após historiar em rica oratória a amizade argentino-brasileira e recordar a afìrmação de Canning segundo a qual a independência sul-americana havia trazido à vida um novo mundo destinado a restabelecer o equilíbrio do antigo, o Deputado expôs a sua visão do futuro: “ A aproximação entre dois grandes povos em nome do progresso tranqüilo que suscita nobres estímulos e apaga rivalidades estéreis, (...) ( chamados ) a preferir as vias sólidas e amplas da paz, do comércio e do trabalho, marcadas pela natureza a povos em crescimento, que necessitam, antes de mais nada de seu crédito moral e material.. Tudo nos chama, tudo nos une...”.

     Na Câmara Alta, o recebimento esteve a cargo do Senador por Santa Fé, Lorenzo Anadón, cujas inspiradas palavras preconizaram a integração jurídica e institucional entre o Brasil e a Argentina em formulação notavelmente avançada para a época: “ Esta embaixada parlamentar de povo a povo...constitui talvez a nota mais sugestiva das históricas demonstrações destes dias. À vista das duas representações confundidas. na presença deste quadro em que as divisões políticas resultam suprimidas, dir-se-ia que as fronteiras de ambas nações se dilatam respectivamente até os seus limites extremos e que os Senadores pelo Amazonas ou pelo Rio Grande poderiam discutir leis comuns com seus colegas por Tucumán e Santa Fé...”.

     Responderam em nome das duas Casas do Brasil, o Senador Serzedello Correia e o Deputado Gastão da Cunha. Este, ao abraçar o General Mitre, exclamou: “ Abraço uma página da minha História! ”.

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     O dia 31 foi dedicado a despedidas. A caminho de uma matinée oferecida pelo Ministro da Marinha do Brasil a bordo do Riachuelo, Campos Salles convidou Roca a acompanhá-lo numa visita, fora do protocolo, ao General Mitre. Comentaram os jornais da época a relevância da iniciativa de Campos Salles de visitar, junto com Roca, o ilustre argentino que, naquele momento, “ assistia à sua própria posteridade ”. Os três, ainda segundo a crônica de então, “ encarnam o pensamento mais formoso e magnânimo na política internacional da América; a união leal do Brasil e da Argentina garante o equilíbrio sul-americano ”.

     Ademais da matinée produziram-se naquela véspera da partida de Campos Salles uma série de atos destinados ao congraçamento militar. Houve uma visita ao Arsenal de Guerra, um ato religioso no Convento de São Domingos em memória dos caídos na Guerra do Paraguai e à noite, o Ministro da Guerra da Argentina, Coronel Pablo Riccheri, ofereceu banquete ao Marechal Cantuária, Chefe do Estado Maior do Exército Brasileiro.

     As manifestações então ocorridas sublinharam a união nascida na luta comum. O Coronel Riccheri referiu-se aos “ vínculos que resistem à ação do tempo e dos acontecimentos: os vínculos de sangue vertidos em comum nos campos de batalha pela nobre causa da liberdade ". E o Marechal Cantuária creditou a solidariedade entre o Brasil e a Argentina aos seus Exércitos, que lutaram afiados “ pela santa causa da liberdade ( e que ) conjuntamente sofreram as privações dos mesmos acampamentos militares...defendendo as mesmas causas e compartilhando as mesmas vitórias ”.

***

  A partida do Presidente Campos Salles deu-se no dia 1º de novembro, em meio a manifestações protocolares e populares. Campos Salles ofereceu almoço de despedida a Roca a bordo do Riachuelo. Ao subir no encouraçado, segundo consta nos relatos da época, com lágrimas nos olhos, despediu-se do povo que o acompanhara ao cais com as seguintes palavras: ” Adeus! Deixo o meu coração entre vocês. ”

     O banquete a bordo do Riachuelo encerrou a visita. Permitiu uma longa e última conversa a sós entre Campos Salles, Roca e Mirre, da qual não ficou registro escrito. Propiciou ademais nova rodada de manifestações oratórias em que a efusão da amizade recíproca viu-se fortalecida pelos sentimentos nascidos da convivência harmoniosa e festiva dos dias precedentes.

     Campos Salles deixaria constância na sua mensagem ao Congresso Nacional de 3 de maio de 1901 dos resultados da visita, em termos que, situando-se no plano das impressões de natureza protocolar e afetiva, de fato pouco revelam sobre a substância dos temas de fundo da relação bilateral: - Coube-me a satisfação de retribuir, em outubro do ano passado, a honrosa visita do Exm. Sr. General Julio Roca, Presidente da República Argentina. Assinalo com verdadeiro desvanecimento que não podiam ter maior esplendor nem mais alta significação as extraordinárias demonstrações de carinhoso afeto com que fui acolhido no seio da grande nação amiga; onde o povo profundamente identificado com o seu governo, e na expansiva espontaneidade dos seus sentimentos, prodigalisou mais honrosas homenagens à República Brasileira na pessoa de seu primeiro  magistrado.

     Estes atos de muita cortesia, proporcionando a troca de cordial hospitalidade e a retribuição de amistosos cumprimentos, exercerão salutar influência na vida dos dois povos amigos e nas soluções da política internacional, de cujas regiões emerge, sob o alto patrocínio de grandes potências a generosa aspiração da paz geral.

     Ao deixar a República Argentina, sob as vivas impressões das festas grandiosas celebradas por um povo amigo em honra da nossa Pátria, protestei ante o seu ilustre Presidente o meu imperecível reconhecimento pelo carinhoso agasalho e fidalga hospitalidade com que fui  recebido no caráter de supremo magistrado do meu país.

     A Nação Brasileira tem justos motivos para registrar com ufania, nas melhores páginas da história de sua política externa, o grandioso acontecimento que exprime, nos seus alto intuitos,  uma obra de afetuosa afinidade  - entre duas nações que se estimam – em benefício  da paz da justiça e da civilização. ”

***

O velho Presidente ainda viria prestar um derradeiro serviço à causa do entendimento entre o Brasil e a Argentina. Desaparecido o Barão do Rio Branco em fevereiro de 1912, seu sucessor, Lauro Müller, recorreu a Campos Salles para “ endulzar las  relaciones “ entre os dois países.

     Lauro Müller confiava que o prestígio de Campos Salles em Buenos Aires, suas ligações pessoais com as lideranças argentinas, pudessem contribuir para restituir às redações bilaterais a atmosfera de cordialidade e confiança recíproca de que se ressentiam.

     Novamente abria-se a expectativa de que uma coreografia protocolar e um certo tom positivo de retórica diplomática pudessem qualificar positivamente uma relação que parecia esbarrar em desconfianças e encerrar-se numa dinâmica adversativa.

     As instruções de Lauro Müller ao novo Ministro em missão extraordinária revelam com   singular expressividade as características da diplomacia da época e a natureza da missão entregue a Campos Salles. Perguntado pelo ex-Presidente sobre o que deveria falar em Buenos Aires, o Chanceler aconselhou-o a rever as suas antigas amizades e afiançar-lhes o desejo brasileiro de desenvolver relações amistosas.

     É de Campos Salles o retrato que guarnece a parede principal do escritório do Embaixador do Brasil em Buenos Aires. De fraque cinzento, fisionomia austera e olhar esperto, contrasta com as linhas despojadas e modernas da decoração da Embaixada. Simboliza a perenidade de uma relação reconhecida aos homens que, adiante dos seus tempos, foram capazes de entender e antecipar o entendimento de que hoje desfrutam.

     Quaisquer que tenham sido as motivações imediatas que então os levaram a convergir, Roca e Campos Salles passaram a simbolizar o paradigma da integração nas relações entre o Brasil e a Argentina.  Ao associar a riqueza, a pujança e a liberdade a que estavam destinados os dois países a situações que os pusessem juntos e sob garantias recíprocas, Roca e Campos Salles adiantaram-se ao moderno conceito de integração e deixaram expressa uma visão intuitiva e voluntarista, mas nem por isso menos valiosa, da atual dinâmica de entendimento e cooperação.

     Os interesses estratégicos, os móveis econômicos e as percepções entranhadas em séculos de antagonismos e conflitos, impediram por muito tempo uma aproximação real, mais tarde tornada ainda mais difícil em função do ciclo de ditaduras e intervenções militares que se implantou na América do Sul entre 1930, nas imediações da II Guerra Mundial, e que se estendeu praticamente até o início da década dos 80. Antagonismos ideológicos, suspicácias, rivalidades, fatores de toda ordem contribuíram para que se mantivessem erguidas as barreiras que desde os tempos da colonização e da fase pós independência haviam separado o Brasil da Argentina. Dissintonias originadas tanto pelo modo como as duas economias se inseriam no sistema internacional de produção quanto pelos modelos autárquicos de substituição de importações prevalecentes em ambos países, assim como percepções assimétricas por parte das respectivas lideranças militares, impediram durante algumas décadas que se consolidasse um entendimento positivo entre o Brasil e a Argentina.

     Na verdade, o paradigma da integração prenunciado por Campos Salles e Roca só prevaleceu plenamente quando os dois países voltaram a se encontrar sob a democracia. A superação das áreas de atrito e de desconfiança recíproca, como era o caso do setor nuclear, assim como a paulatina conformação do processo de integração bilateral constituiu um componente significativo do processo de afirmação do poder civil e da redemocratização de ambos os países. A democracia permitiu que se pusessem em marcha as políticas de aproximação e cooperação que, por sua vez, viabilizaram mecanismos de articulação política e de integração e deram origem ao atual processo, em que o Mercosul surge como a expressão mais acabada de entendimento e concertação. Concretizou-se, enfim, o entramado de interesses recíprocos vislumbrado há um século. A retórica presciente se transformou em realidade objetiva.

     Pró-homens deste processo, Campos Salles e Roca são, de pleno direito, padroeiros do Mercosul. Nada mais justo do que recuperar o seu legado histórico e atualizar o seu significado.

VISITAS DE DOIS PRESIDENTES, ILUSTRAÇÕES E LEGENDAS
( pág 15 )  Desenho de Stein circa 1900, O presidente Julio Argentino Roca, coleção Rosendo Fraga
( p. 33 )  8 de agosto de 1899. O público espera os dois presidentes  junto ao Arsenal da Marinha, no Rio de Janeiro. Um cortejo de carruagens os levaria ao Palácio do Catete.

(p. 39 ) Os dois presidentes no topo do Corcovado. Naquela época, onde hoje se encontra o Cristo de braços abertos, existia uma pequena edificação chamada de Chapéu de sol. Coleção Rosendo Fraga.

(p.54)  Rio de Janeiro, entardecer de 15 de agosto de 1899. Membros da comitiva Argentina passeiam no Jardim Botânico.

(p.62) O presidente Campos Sales

(p.78) Recepção a Campos Sales em Buenos Aires. O Palácio da Prefeitura Municipal foi decorado com os escudos dos ( então ) 21 Estados brasileiros e com retratos de personalidades históricas do Brasil.

(p.90) Os presidentes  Campos Sales e Julio Roca ( esq. ) e o capitão Joaquim Alves de Barros e o coronel Gramajo ocupam a primeira das 14 carruagens da comitiva oficial que vai desfilar por Buenos Aires.

(p.94) Em homenagem ao Brasil, tropas argentinas comandadas pelo Tenente-General Levalle  passam em frente à Catedral de Buenos Aires.
 (p.112) Os dois presidentes em momento de descontração na estância Saint Martin.

(p.123) Sete anos depois, em março de 1907, Julio Roca ( centro )  voltou ao Brasil e se encontrou com Campos Sales ( esq ) e com o Barão do Rio Branco.





Desenho de Stein circa 1900, O presidente Julio Argentino Roca,
coleção Rosendo Fraga



O presidente Campos Sales




8 de agosto de 1899. O público espera os dois presidentes 
junto ao Arsenal da Marinha, no Rio de Janeiro. Um cortejo
de carruagens os levaria ao Palácio do Catete.





Os dois presidentes no topo do Corcovado. Naquela época, onde
hoje se encontra o Cristo de braços abertos, existia uma pequena
edificação chamada de Chapéu de sol. Coleção Rosendo Fraga.





Recepção a Campos Sales em Buenos Aires. O Palácio da Prefeitura Municipal
foi decorado com os escudos dos ( então ) 21 Estados brasileiros
e com retratos de personalidades históricas do Brasil.




Os presidentes  Campos Sales e Julio Roca ( esq. ), o capitão Joaquim Alves
de Barros e o coronel Gramajo ocupam a primeira das 14 carruagens da
comitiva oficial que desfila por Buenos Aires.



Em homenagem ao Brasil, tropas argentinas comandadas pelo
Tenente-General Levalle  passam em frente à Catedral de Buenos Aires.






Sete anos depois, em março de 1907, Julio Roca ( centro )  voltou ao Brasil e se
encontrou com Campos Sales ( esq. ) e com o Barão do Rio Branco.